O milagre da compaixão seletiva: Estadão descobre Direitos Humanos, mas só para Bolsonaro
Data: 18 de novembro de 2025
Em espetáculo de contorcionismo editorial, jornal que pregou o “império da lei” para petista agora encarna a Cruz Vermelha para o ex-capitão.
Numa demonstração de flexibilidade moral digna de ginastas olímpicos, o jornal O Estado de S. Paulo conseguiu defender com a mesma gravidade editorial duas ideias diametralmente opostas. O que antes era uma defesa intransigente da lei e da ordem, sem espaço para “privilégios”, transformou-se em um comovente apelo humanitário por “tratamento especial”. O fator de conversão? A identidade do réu.
Para Luiz Inácio Lula da Silva, em 2019, o Estadão vestiu sua toga de guardião da República e, no editorial “Privilégios na prisão”, desfiou o rosário de argumentos legalistas: a lei é para todos, sem exceções, e a República não se curva a indivíduos. Era o império da lei em sua mais pura e implacável forma.
Anos depois, com a possibilidade de Jair Bolsonaro ocupar uma cela, o jornal despertou de seu sono dogmático e, em “Bolsonaro merece tratamento especial”, subitamente descobriu as complexidades da alma humana. A “saúde debilitada” do ex-presidente, um detalhe prosaico no caso de outros réus, tornou-se a chave para um regime penal à la carte.
O princípio da igualdade (versão Flex)
A ginástica argumentativa é notável. Para Lula, um ex-presidente septuagenário, fatores como idade, histórico político e riscos de segurança foram solenemente ignorados em nome de um princípio abstrato de isonomia.
Já para Bolsonaro, o Estadão considera não apenas a saúde, mas a própria dignidade do cargo que um dia ocupou. A conclusão é inevitável: para o jornal, a igualdade perante a lei é um princípio fundamental, mas, como tudo na vida, admite exceções convenientes.
Não se trata de uma mudança de critério, mas da aplicação de uma régua para amigos e outra para inimigos.
O episódio é emblemático de como a fantasia da imparcialidade na grande imprensa se desfaz como um castelo de areia. O Estadão, baluarte do conservadorismo liberal, nunca foi exatamente um fã do PT, mas a defesa de um “tratamento especial” para o homem que ameaçou a própria democracia — valor que o jornal diz prezar — eleva a parcialidade a um novo patamar.
A defesa de Bolsonaro soa ainda mais dissonante vinda de um veículo que, teoricamente, se opõe a populismos e autoritarismos. Ao que parece, há autoritários mais aceitáveis que outros.




