Portal do Ricardo Mello

Cara de pau: Ramagem diz que vai exercer mandato à distância dos Estados Unidos

Data: 24 de novembro de 2025

O deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) disse nesta segunda-feira (24/11)que vai continuar exercendo seu mandato parlamentar à distância dos Estados Unidos. A declaração inusitada veio após o parlamentar fugir para Miami e ter sua prisão preventiva decretada pelo ministro Alexandre de Moraes na sexta-feira passada.

Em vídeo publicado no X depois de passar uma generosa camada de Óleo de Perona na cara, Ramagem tentou normalizar sua situação irregular. “Estou regular. Posso, sim, continuar minha atuação parlamentar mesmo à distância como vários de vários partidos fazem também. Estou respaldado na Constituição, nas leis e no regramento da Câmara”, afirmou o ex-diretor da Abin.

A declaração soa quase cômica, considerando que o deputado está foragido em um condomínio de luxo em Miami, conforme revelou reportagem do site PlatôBR. Enquanto deveria estar representando seus eleitores em Brasília, Ramagem prefere as praias da Flórida.

A Constituição que Ramagem não leu

O problema é que a narrativa do deputado não encontra respaldo na realidade jurídica. A Constituição Federal é cristalina: as sessões do Congresso Nacional acontecem presencialmente em Brasília. Não existe “home office” parlamentar, muito menos “beach office” em Miami.

A Carta Magna estabelece que parlamentares que faltarem a um terço das sessões ordinárias perdem o mandato. As únicas exceções são licenças médicas ou missões oficiais autorizadas pela Câmara, situações que claramente não se aplicam ao caso de Ramagem.

A Câmara já disse não

A Câmara dos Deputados deixou claro que não autorizou qualquer missão do parlamentar no exterior. Segundo a Casa, Ramagem apresentou apenas atestados médicos cobrindo períodos entre setembro e dezembro, exatamente quando estava curtindo Miami.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), ainda não se manifestou sobre o caso específico de Ramagem. Mas suas declarações anteriores sobre Eduardo Bolsonaro, outro golpista fujão, foram categóricas.

“Não existe mandato a distância”, disse Motta em agosto, quando questionado sobre Eduardo Bolsonaro na GloboNews. “Não há previsão regimental do exercício do mandato a distância, e o deputado Eduardo Bolsonaro, quando tomou a decisão de ir para os Estados Unidos cumprir o papel que ele acha correto, sabia que era incompatível o exercício parlamentar.”

Se vale para Eduardo, por que seria diferente para Ramagem? A resposta pode estar na conveniência política do momento. A Câmara vai ter que explicar como Ramagem conseguiu o chip que permite as votações à distância.

A fuga calculada

Ramagem não está em Miami por acaso. O deputado fugiu do país em setembro, muito antes de Moraes decretar sua prisão. Como ex-diretor da Abin, ele tinha acesso privilegiado a informações sobre as investigações da trama golpista e provavelmente percebeu que o cerco estava se fechando.

Sua participação na articulação que visava manter Jair Bolsonaro no poder após a derrota eleitoral de 2022 o colocou na mira da Polícia Federal. A fuga antecipada foi uma estratégia para escapar das consequências legais.

Mandato fantasma custeia vida de luxo

Enquanto Ramagem bronzeia sob o sol de Miami, o povo brasileiro continua pagando por um mandato que não está sendo exercido. O deputado mantém salário, benefícios e toda a estrutura parlamentar, sem cumprir suas obrigações constitucionais básicas.

É uma situação absurda: um representante do povo, condenado por atentar contra a democracia, que abandonou o país para fugir da Justiça continua recebendo pelos serviços que não presta. Onde está a lógica nisso?

A declaração de Ramagem sobre exercer o mandato à distância revela algo ainda mais grave: a tentativa de normalizar o absurdo. O deputado quer que a sociedade aceite como normal um parlamentar foragido comandando seu gabinete via videoconferência de outro país.

Se essa lógica prevalecer, qual será o próximo passo? Deputados investigados poderão simplesmente mudar-se para o exterior e alegar que estão “trabalhando remotamente”? É a institucionalização da fuga como estratégia política.

O Congresso Nacional precisa agir. A cassação do mandato de quem abandona suas funções para fugir da Justiça deveria ser automática, não uma questão de interpretação política.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezessete − doze =

Notícias relacionadas