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Lula analisa, com calma, se vai dizer sim ou não a convite de Trump para ‘Conselho de Paz’

Data: 19 de janeiro de 2026

Quando Donald Trump convida você para um conselho que ele mesmo criou, com regras que ele mesmo estabelece, para decidir sobre um conflito que ele mesmo quer resolver, a resposta inteligente é: deixa eu pensar um pouco. E é exatamente o que Lula está fazendo.

O presidente brasileiro recebeu o convite para integrar o chamado “Conselho da Paz”, uma iniciativa de Trump focada em Gaza. Mas ao contrário do que muita gente pensa, Lula não está correndo para dizer sim. Na verdade, está fazendo o oposto: está observando tudo com cuidado, conversando com seus assessores e deixando claro que essa decisão não será tomada no calor do momento.

Auxiliares do governo brasileiro explicam que a avaliação começa agora, mas será feita com calma. Não há pressa. E há boas razões para isso.

O que Trump está oferecendo, afinal?

Aqui está o problema. O convite de Trump dá a entender que o conselho foi criado para tratar de Gaza, mas suas atribuições podem ser ampliadas. Isso gera um temor legítimo: a instância proposta por Trump pode passar a operar paralelamente ao Conselho de Segurança da ONU, criando uma espécie de concorrência entre os dois órgãos.

Imagine só. Você tem um conselho internacional que já existe há décadas, com regras estabelecidas e legitimidade reconhecida. De repente, aparece outro conselho, criado por um presidente americano, com objetivos que podem ser expandidos conforme ele achar conveniente. Qual é a autoridade real de cada um? Quem decide o quê? Essas são perguntas que Lula está fazendo antes de colocar o Brasil nessa encruzilhada.

Trump indicou que os objetivos do conselho incluem “fortalecimento da capacidade de governança, relações regionais, reconstrução, atração de investimentos, financiamento em larga escala e mobilização de capital”. Parece abrangente demais para um conselho que supostamente trata apenas de Gaza.

O preço da cadeira

Tem mais uma coisa que deixa qualquer presidente pensativo. Trump estipulou que os países que contribuírem com 1 bilhão de dólares para a reconstrução de Gaza terão assento permanente. Ou seja, participação não é de graça. É um “investimento”.

A participação inicial é de três anos, mas se você quer garantir sua voz no conselho de forma permanente, precisa colocar dinheiro na mesa. Muito dinheiro. Lula está avaliando se o Brasil tem interesse em fazer esse tipo de compromisso financeiro e, mais importante, se faz sentido fazer isso em um conselho cujos objetivos ainda não estão completamente claros.

A França também está na dúvida

Lula não está sozinho nessa hesitação. A França, segundo a agência AFP, “não pretende aceitar” o convite. O governo francês indicou que a iniciativa levanta “questões maiores”. Emmanuel Macron e sua equipe estão analisando as disposições do texto proposto, mas sinalizaram que há preocupações sobre o escopo da iniciativa, que vai além da situação em Gaza.

O governo brasileiro está sinalizando que tomará uma postura semelhante à francesa. Ou seja, vai pensar bastante antes de responder.

O que Lula quer saber antes de decidir

Um representante da diplomacia brasileira explicou ao site PlatôBR que “a reflexão começa agora e será feita sem pressa. Não há nada claro sobre os objetivos. A avaliação será feita um dia de cada vez”. Essa frase resume bem a posição brasileira: não sabemos exatamente o que estamos aceitando, então vamos esperar para ver.

Antes de responder a Trump, Lula pretende avaliar quais serão os objetivos reais do conselho, quais países aceitarão fazer parte e qual será o pensamento predominante a respeito de conflitos militares. Porque participar de um conselho onde você é minoria em relação aos interesses de Trump é bem diferente de participar de um conselho onde há equilíbrio de poder.

Entre os convidados estão os presidentes da Argentina, Javier Milei, e da Turquia, Recep Erdogan. Milei é aliado de Trump. Erdogan tem seus próprios interesses no Oriente Médio. Como o Brasil se posiciona nesse cenário? Essa é a pergunta que Lula está fazendo.

O risco de dizer não

Aqui está o dilema real. Depois da crise do tarifaço, o governo brasileiro iniciou um processo de aproximação com a Casa Branca de Trump. Uma das consequências de declinar o convite pode ser uma reversão desse movimento. Trump não é conhecido por aceitar bem um “não” de líderes que ele considera importantes.

Então Lula está pesando: aceitar significa colocar dinheiro em um conselho cujos objetivos não estão claros e que pode competir com a ONU. Recusar significa arriscar uma deterioração nas relações com Trump, que já demonstrou disposição para usar tarifas como arma política.

Não é uma escolha fácil. É o tipo de decisão que exige tempo, análise e conversa com gente que entende de diplomacia. É por isso que Lula não está correndo.

O que está realmente em jogo

Quando Trump cria um conselho para decidir sobre conflitos internacionais, ele está tentando criar uma alternativa ao sistema multilateral que existe desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Um sistema onde os EUA têm poder, mas não têm poder absoluto. Um conselho de Trump seria diferente. Seria um espaço onde as regras são estabelecidas por ele e onde quem paga mais tem mais voz.

Lula está certo em não ter pressa. Porque essa decisão não é apenas sobre Gaza. É sobre qual tipo de ordem internacional o Brasil quer apoiar. É sobre se faz sentido investir em uma instituição paralela à ONU ou se é melhor fortalecer as instituições que já existem. É sobre se o Brasil quer ser um país que segue as regras do jogo ou um país que tenta mudar as regras.

A resposta que Lula der dirá muito sobre como ele vê o futuro das relações internacionais. E sobre como ele vê o papel do Brasil nesse futuro.

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