Flávio Bolsonaro usa dinheiro público para campanha presidencial enquanto acusa adversários de corrupção
Data: 20 de janeiro de 2026
A ironia é tão grossa que até parece proposital. Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência, embarca para Israel em uma missão oficial custeada pelo Senado para participar de uma conferência sobre antissemitismo. Só que a real é outra: trata-se de uma viagem de campanha disfarçada de agenda institucional, bancada pelos cofres públicos. Nós já até falamos sobre isso aqui no Portal do Ricardo Mello. E tem mais. Dias antes, o senador já tinha sido flagrado usando a cota parlamentar para pagar passagens aéreas de uma viagem a São Paulo onde participou de um evento de pré-campanha com empresários. Quando devolveu o dinheiro, chamou de “equívoco”. A gente chama de padrão.
Aqui está o ponto que ninguém quer dizer em voz alta: a direita bolsonarista passa o tempo todo acusando a esquerda de usar máquina pública para campanha, de desviar dinheiro, de confundir público com privado. Só que quando chega a hora de agir, faz exatamente aquilo que denuncia nos outros. É como aquele cara que reclama de traição e depois é pego com a amante. A hipocrisia não é um detalhe, é o modelo de negócio.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, autorizou em 22 de dezembro a viagem de Flávio para Israel, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. A justificativa oficial é que se trata de uma missão do Senado. Tecnicamente, está dentro das regras. Mas a assessoria do senador foi bem clara sobre o que é de verdade: a fala dele será marcada por “diretrizes que pretende adotar em um eventual futuro governo” e ampliação das relações bilaterais. Ou seja, campanha. Pura campanha. Só que paga por você e por mim.
O custo é nada desprezível. Segundo reportagem do site Metropoles, Flávio receberá quase US$ 7,9 mil em diárias, o que dá mais de R$ 42 mil. Isso sem contar as passagens aéreas, que ainda não foram informadas ao Senado. As regras permitem apresentação em até cinco dias úteis após o retorno, então a gente fica esperando para ver quanto saiu do bolso público dessa vez. A viagem tem 20 dias no total, organizada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que foi cassado por faltas e agora funciona como porta-voz do bolsonarismo com a direita internacional.
Mas espera, tem mais. Isso não é a primeira vez. Em dezembro, o Senado desembolsou quase R$ 14 mil em passagens aéreas para Flávio viajar a São Paulo em 11 e 12 de dezembro. O destino? Um evento com empresários no âmbito da pré-campanha presidencial. Os bilhetes foram emitidos para ele e um assessor, Fernando Nascimento Pessoa.
Quando a coisa veio à tona, Flávio chamou de “equívoco” e disse que devolveria o dinheiro. Equívoco. Como se fosse um engano inocente, um erro de digitação, uma confusão de contas. Não é. É uma escolha deliberada de usar dinheiro que não é seu para fazer campanha.
Aqui entra a questão que deveria incomodar qualquer pessoa que acredita em democracia: as regras do Senado permitem que parlamentares façam viagens ao exterior em missões oficiais com custos cobertos pela Casa. Isso é legítimo quando a viagem é de verdade sobre assuntos do Estado. Mas quando um senador usa a estrutura para fazer campanha presidencial, a gente está vendo um desvio de propósito.
E aqui vem o ponto que ninguém quer tocar: Flávio Bolsonaro passa o tempo todo acusando a esquerda de fazer exatamente isso. De usar máquina pública. De confundir campanha com governo. De desviar recursos. O bolsonarismo construiu uma narrativa inteira sobre corrupção, sobre a esquerda roubando dinheiro público, sobre a necessidade de moralização da política. Só que quando chega a hora de agir, faz o mesmo jogo que critica. É como aquele político que grita contra a corrupção enquanto enche os bolsos. A diferença é que aqui a gente vê ao vivo e a cores.
A viagem para Israel tem um objetivo bem definido: aproximação com a direita internacional. Flávio quer se colocar como um player nesse tabuleiro global. Vai discursar ao lado de Benjamin Netanyahu, do ministro da Justiça da Argentina, do premiê da Albania e do embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee. É uma agenda de campanha disfarçada de diplomacia. E quem paga a conta é o contribuinte brasileiro.
Enquanto isso, as pesquisas mostram que Flávio está consolidado como segundo colocado, com 23% de intenção de voto contra 36% de Lula. Tarcísio, o governador de São Paulo que o centrão esperava como candidato mais moderado, fica em terceiro com apenas 9%. A candidatura de Flávio desanima os caciques do partido que queriam algo mais próximo ao centro. Mas Flávio segue em frente, bancado pelo dinheiro público, construindo sua imagem de estadista enquanto acusa os adversários de fazer exatamente o que ele está fazendo.
O padrão é claro: acusa-se de corrupção enquanto se pratica. Denuncia-se o uso de máquina pública enquanto se usa. Grita-se contra a confusão entre público e privado enquanto se confunde. A direita bolsonarista não inventou a hipocrisia, mas elevou a um nível de sofisticação que merecia prêmio. O problema é que o prêmio sai do bolso de quem trabalha e paga imposto.
No fim das contas, a questão não é se Flávio está cometendo crime. Tecnicamente, está dentro das regras. A questão é se a gente vai continuar aceitando que as regras sejam usadas para transformar campanha em missão oficial e dinheiro público em combustível de ambição política. Porque quando a gente normaliza isso, quando a gente deixa passar, a gente está dizendo que está tudo bem. E não está.




