Vorcaro diz à PF que negociou venda do Master com Ibaneis e visitou sua casa
Data: 23 de janeiro de 2026
Daniel Vorcaro sentou na frente da delegada da PF e soltou uma bomba. Conversou “algumas vezes” com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a venda do Banco Master ao BRB. Não foi por telefone. Não foi por intermediário. Foi pessoalmente. Na casa de Vorcaro. E também na casa de Ibaneis. Encontros diretos entre o banqueiro investigado e o governador de um estado que tentava comprar seu banco com dinheiro público. A informação é do jornalista Aguirre Talento, do Estadão.
O depoimento aconteceu no Supremo Tribunal Federal no dia 30 de dezembro, dentro do inquérito que apura crimes financeiros envolvendo a tentativa de venda do Master para o banco estatal do governo do DF. Ibaneis é o primeiro político citado por Vorcaro nas investigações. Não é investigado, mas está ali, bem no meio da história.
Quando a delegada Janaína Palazzo perguntou especificamente se Vorcaro havia tratado com Ibaneis sobre a proposta de aquisição do Master pelo BRB, a resposta foi sim. Vorcaro disse que o assunto foi abordado em encontros institucionais com o governador, com a participação de outras pessoas. Depois, quando perguntado se Ibaneis havia comparecido pessoalmente à residência do empresário, Vorcaro confirmou novamente. E completou: ele próprio também já esteve na casa do governador.
Ibaneis, procurado, negou tudo. Disse que não conversou com Vorcaro sobre o assunto. Afirmou que esteve apenas uma vez na casa do empresário porque foi convidado para um almoço. E soltou uma frase que merecia estar em um dicionário de respostas evasivas: “Entrei mudo e saí calado”.
Pense bem no que isso significa. Um banqueiro investigado por fraudes de bilhões diz que conversou várias vezes com um governador sobre a compra de seu banco por uma instituição estatal. O governador diz que foi a um almoço e não falou nada. Não discutiu. Não conversou. Apenas comeu e saiu. Enquanto isso, o BRB estava comprando carteiras de crédito do Master que depois se revelaram inexistentes. R$ 12,2 bilhões em ativos fantasmas.
Para você entender a gravidade disso, preciso contar um pouco de história. Em março de 2024, Ibaneis anunciou a compra de parte do Master pelo BRB como um “dia de festa”. Estimava que a operação aumentaria a distribuição de dividendos para R$ 1 bilhão por ano para os cofres do Distrito Federal. Era festa mesmo. Festa com dinheiro que não existia.
Em abril, o governador afirmou que a operação apresentava “pouco risco” ao BRB. Disse que o então presidente do banco havia deixado de fora da transação os ativos de maior risco. Mentira. Os ativos de maior risco eram exatamente os que foram incluídos. E não eram apenas de risco. Eram inexistentes.
O Banco Central vetou a operação em setembro. Depois, em novembro, anunciou a liquidação do Master. A PF revelou que havia suspeita de fraudes de 12,2 bilhões na venda de carteiras de crédito falsas. O rombo do BRB é estimado em R$ 4 bilhões. Quatro bilhões de reais que saíram dos cofres públicos do Distrito Federal.
Aqui está o ponto que deveria fazer qualquer pessoa ficar furiosa. Ibaneis tentou fazer esse negócio sem autorização da Câmara Legislativa do DF. Precisou ser obrigado pela Justiça a pedir aval dos deputados distritais. Depois que tudo desabou, começou a estudar aportes no BRB para cobrir os prejuízos. Ou seja, colocou mais dinheiro público em um buraco que já tinha bilhões.
O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, também citou em seu depoimento que Ibaneis foi informado sobre o andamento das operações financeiras do banco estatal com o Master. Então o governador sabia. Sabia que havia operações acontecendo. Sabia que havia dinheiro sendo movimentado. E agora diz que entrou mudo e saiu calado em um almoço na casa do banqueiro investigado.
O discurso de Ibaneis mudou conforme as coisas desabavam. Em março era festa. Em abril era pouco risco. Depois do veto do BC, ficou mais cauteloso. Depois que a PF revelou as fraudes, a vice-governadora Celina Leão disse que o próprio Ibaneis havia determinado a troca do presidente da instituição. “Nós não temos compromisso com erro”, declarou. Mas tinha compromisso com o negócio quando era festa, não é?
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cobrou em conversas recentes que a gestão local desse um socorro financeiro ao BRB, que pode sofrer uma intervenção do Banco Central. Ou seja, agora o governo federal precisa limpar a bagunça que o governo do DF criou.
O que fica claro é que havia comunicação entre Vorcaro e Ibaneis. Havia encontros. Havia conversas sobre a operação. E agora há uma negação que não convence ninguém. Porque não é possível que um governador de um estado que estava tentando comprar o banco de um empresário investigado não tivesse conversado com ele sobre a operação. Não é possível que visitasse sua casa e não discutisse o assunto. Não é possível entrar mudo e sair calado quando bilhões de reais estão em jogo.
O que está em questão aqui não é apenas uma operação financeira fracassada. É sobre como decisões foram tomadas. Sobre quem sabia o quê e quando sabia. Sobre a diferença entre o que foi dito publicamente e o que foi conversado nos bastidores. E sobre a responsabilidade de quem colocou dinheiro público em um negócio que desabou.




