Morte de PM em São Paulo revela inconsistências que desafiam versão de suicídio
Data: 10 de março de 2026
A exumação do corpo da policial militar Gisele Santana trouxe à tona detalhes que transformam o caso de uma morte aparentemente simples em um quebra-cabeça de contradições. O laudo necroscópico, obtido com exclusividade pela TV Globo, aponta lesões no rosto e pescoço compatíveis com pressão digital e marcas de unha, sugerindo que a vítima pode ter desmaiado antes do disparo que a matou.
Aqui começa a primeira incongruência. Se Gisele desmaiou, como disparou a arma contra sua própria cabeça? Os peritos também observaram ausência de sinais de defesa, o que reforça a teoria de que ela estava inconsciente no momento do tiro. Um socorrista que atendeu a ocorrência relatou algo igualmente perturbador: a arma estava “bem encaixada” na mão da mulher de forma que nunca havia visto em casos de suicídio. Ele fotografou a cena justamente por achar incomum.
O marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, apresenta uma versão que não resiste ao escrutínio dos fatos. Ele afirmava estar tomando banho quando ouviu o disparo por volta das 7h28, mas os bombeiros que chegaram ao local encontraram um homem completamente seco, sem marcas de água no chão do apartamento ou no corredor.
Um sargento com 15 anos de experiência foi categórico em seu depoimento: não havia pegadas molhadas que indicassem que Geraldo teria saído do banho naquele momento. O chuveiro estava ligado, mas o piso seco como se nunca tivesse sido usado.
A sequência de eventos também levanta questões. Uma vizinha acordou com o estampido às 7h28, mas Geraldo só acionou a emergência 29 minutos depois, às 7h57. Naquela ligação, ele afirmou que a esposa havia se matado. Minutos depois, às 8h05, ligou novamente para o Corpo de Bombeiros dizendo que ela ainda estava respirando. Os socorristas chegaram às 8h13 e encontraram sangue já coagulado, sem nenhum cartucho de bala no local.
O comportamento emocional do tenente-coronel também chamou atenção dos profissionais de resgate. Nenhum desespero, nenhuma lágrima. Ele falava calmamente ao telefone, questionava constantemente o atendimento dos bombeiros e insistia que a esposa fosse levada com pressa ao hospital. Mais intrigante ainda: não havia uma única mancha de sangue em seu corpo ou roupas, o que indicaria que ele não tentou prestar os primeiros socorros à mulher.
Entre os contatos feitos por Geraldo naquela manhã, um merece destaque especial. Ele ligou para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, que chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o apartamento. Segundo a família de Gisele, o magistrado foi a primeira pessoa acionada após o disparo. Às 9h18, o desembargador reaparecia no corredor. Onze minutos depois, Geraldo surgia com outra roupa.
A defesa do tenente-coronel sustenta que ele não é investigado, suspeito ou indiciado e que tem colaborado com as autoridades. Já a defesa do desembargador afirma que ele foi chamado como amigo do oficial. Explicações que deixam mais perguntas do que respostas.
O caso, inicialmente registrado como suicídio, segue sob investigação da Polícia Civil e da Corregedoria da Polícia Militar. Mas os fatos documentados pelos socorristas e peritos sugerem que a versão apresentada pelo marido da vítima merecia um escrutínio bem mais rigoroso desde o início.




