Portal do Ricardo Mello

Mulheres não estão seguras nem dentro de delegacias, mostra caso de estupro no Piauí

Fachada da Delegacia de Polícia de Teresina, no Piauí

Data: 24 de março de 2026

Uma servidora da Polícia Civil do Piauí foi encontrada desacordada e sangrando dentro da Delegacia-Geral de Teresina, na quinta-feira 19 de março. Ela trabalha para a instituição que deveria protegê-la. Não protegeu.

A mulher foi encontrada por uma colega de trabalho por volta das 13h, durante o horário de almoço. Um prestador de serviços terceirizado, de 34 anos, estava saindo da sala onde ela foi descoberta inconsciente. Segundo a Polícia Civil, que investiga o caso, há indícios de que ela tenha sofrido estupro. O suspeito está preso preventivamente.

O delegado-geral Luccy Keiko detalhou em coletiva de imprensa que o terceirizado apresentou duas versões contraditórias em seus depoimentos. Primeiro negou. Depois admitiu o ato sexual, mas tentou responsabilizar a vítima, alegando que teria sido consensual. Keiko descreveu o suspeito como “uma pessoa fria”. A polícia solicitou exames toxicológicos para investigar se a mulher foi dopada durante o ataque.

A servidora permanece internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva. Segundo sua advogada, Nathália Freitas, ela apresenta episódios de extrema agitação, pânico constante e confusão mental. Ficou intubada por três dias antes de ser transferida para um hospital particular na segunda-feira 23. Não há previsão de alta.

O caso ganhou contornos ainda mais perturbadores quando a filha da vítima revelou que o mesmo suspeito a abordou durante seu depoimento na Casa da Mulher Brasileira, fazendo perguntas íntimas sobre a mãe. Ela não sabia ainda o que tinha acontecido. O homem perguntou se o sangramento tinha parado, se algo tinha sido encontrado na região íntima. Estava nervoso, segundo ela. Estava investigando sua própria vítima.

Este é o retrato de uma realidade que não cabe em estatísticas: mulheres não estão seguras em lugar nenhum. Não nas casas, onde sofrem violência doméstica. Não nas ruas, onde enfrentam assédio e agressão. E agora sabemos que também não nos espaços que deveriam ser fortalezas de proteção, como delegacias de polícia.

O prestador foi contratado em 2018 e trabalhou no Instituto de Medicina Legal antes de ser designado para a Delegacia-Geral há três meses. Ele também foi investigado há dez anos pelo linchamento de um homem suspeito de assalto. A polícia solicitou sua demissão, mas o Governo do Piauí ainda não assinou a decisão.

As delegadas Nathalia Figueiredo, Lucivânia Vidal e Bruna Verena foram designadas para acompanhar a investigação. Os celulares da vítima e do suspeito foram apreendidos. A perícia do Instituto de Medicina Legal ainda está em andamento para atestar a violência sexual.

O que este caso revela não é novo. É apenas mais um exemplo de como as instituições que prometem segurança frequentemente se tornam cenários de vulnerabilidade. E de como mulheres continuam tendo que confiar em sistemas que as falham sistematicamente.

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