Operação apura fraude de R$ 26 mi em contrato entre ONG do Dark Horse e Prefeitura de SP
Data: 1 de junho de 2026
A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira uma operação contra o Instituto Conhecer Brasil (ICB), suspeito de desviar pelo menos R$ 26 milhões de um contrato milionário para instalação de wi-fi na periferia da capital. A ONG pertence à empresária Karina Ferreira da Gama, que também comanda a produtora Go UP Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo a investigação da 2.ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, o contrato inicial de R$ 108 milhões foi inflado para R$ 157,1 milhões através de aditivos assinados pela gestão Ricardo Nunes (MDB). O problema é que a ONG recebeu valores mensais sem entregar o serviço prometido. Enquanto a Prodam, empresa pública de tecnologia da prefeitura, cobrava R$ 230 por ponto instalado, o Instituto Conhecer Brasil fixou R$ 1.800 mensais por ponto. A diferença é tão gritante que parece brincadeira de mau gosto com dinheiro público.
O contrato previa 5 mil pontos de conectividade até junho de 2025. Até agora, apenas 3.200 foram instalados. Para disfarçar o atraso, a ONG celebrou três aditivos em intervalos curtíssimos. Mais interessante ainda: a prefeitura antecipou R$ 26 milhões sem qualquer contraprestação, incluindo repasses superiores a R$ 11 milhões em julho e agosto de 2024 para apenas 3.200 pontos quando apenas seis deles funcionavam de verdade.
A reportagem do G1 descobriu que a ONG usou ao menos R$ 4 milhões em notas fiscais canceladas para justificar despesas. Uma delas, de R$ 2 milhões emitida pela empresa Complexsys Soluções Integradas em novembro de 2025, foi cancelada no mesmo dia em que foi emitida, mas mesmo assim apareceu na prestação de contas apresentada à prefeitura em fevereiro de 2026. O proprietário da Complexsys é André Feldman, que aparece em fotografias ao lado de Karina da Gama nas redes sociais.
Além das notas canceladas de terceiros, o Instituto Conhecer Brasil emitiu notas para si mesmo, como se tivesse prestado um serviço para si próprio. Pelo menos três dessas notas somam mais de R$ 1,4 milhão. Um parecer da Secretaria de Tecnologia da prefeitura, datado de 26 de fevereiro de 2026, apontou que a instituição não poderia emitir notas para si mesma e tampouco devolveu os valores irregulares. O documento também identificou R$ 925 mil em pagamentos duplicados.
A operação cumpre mandados de busca e apreensão nos endereços ligados a Karina Ferreira da Gama e na sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação. O objetivo é apreender computadores, documentos e celulares que ajudem a esclarecer as investigações. A Polícia Civil também pediu autorização judicial para acessar informações financeiras sigilosas da empresária.
Karina da Gama não é novata em negócios com o poder público. Em 2022, ela prestou serviços de consultoria para a campanha a deputado de Mário Frias (PL), recebendo R$ 54 mil. O deputado, por sua vez, destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares para o Instituto Conhecer Brasil. A transação está sob investigação no Supremo Tribunal Federal por suspeita de falta de transparência.
Há ainda um contrato de R$ 12 milhões entre a ONG e a empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda. O dono da empresa é Alex Leandro Bispo dos Santos, preso desde fevereiro acusado de feminicídio da companheira. No primeiro contrato, o nome do empresário aparecia apenas como “Alex”, sem sobrenome, CPF ou identidade. Após denúncias em dezembro de 2025, a empresa deixou de ter Alex como sócio único e passou para o controle de Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que mora no mesmo endereço dele.
O prefeito Ricardo Nunes afirmou que a gestão municipal está à disposição para colaborar com as investigações. “Não constatamos nada de irregular no processo, mas estamos à disposição para colaborar, como já vem sendo feito. Se por acaso tiver a identificação de alguma irregularidade obviamente tomaremos todas as providências de forma rigorosa”, disse à GloboNews. A prefeitura também negou que exista qualquer relação entre o contrato e a produção do filme sobre o ex-presidente.
A Complexsys Soluções Integradas, por sua vez, afirmou que “acompanha com serenidade a investigação” e que é “mera prestadora de serviços” da ONG, ressalvando que inexistem conclusões definitivas que justifiquem qualquer responsabilidade.
A investigação do Ministério Público de São Paulo também apura se não houve concorrência na contratação do instituto, já que a ONG não tinha qualquer histórico de atuação no setor de telecomunicações. Seu histórico operacional se limitava a feiras de livros e eventos de natureza literária ou religiosa. Parece que alguém achou que gerenciar wi-fi público era apenas mais um livro para ser lançado.




