A Polícia Federal intensificou nesta quarta-feira (1º de janeiro) a investigação contra o entorno do deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL na Câmara dos Deputados, em operação autorizada pelo ministro Flávio Dino do Supremo Tribunal Federal. O parlamentar não é alvo direto, mas as medidas revelam um padrão preocupante de movimentações financeiras que a corporação aponta como indícios de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Esta é a terceira fase da Operação Rent a Car, que já havia realizado buscas contra o deputado no fim de 2025 para investigar suspeitas de desvios de recursos públicos das cotas parlamentares. O que começou como uma investigação sobre uma empresa de locação de carros evoluiu para algo bem mais complexo: uma trama que envolve saques em espécie, imóveis, empresas de fachada e até o veículo da filha do deputado.
O dinheiro que surgiu do nada
Em dezembro, a PF apreendeu mais de R$ 468 mil em espécie em um endereço ligado a Sóstenes, encontrados em um guarda-roupa no quarto 806 do Complexo Brasil 21, em Brasília. O deputado havia negado a existência de valores em dinheiro vivo no local durante a operação, mas a corporação localizou as cédulas de R$ 100 acondicionadas em saco plástico.
Quando questionado pela imprensa, Sóstenes ofereceu uma explicação: o dinheiro seria proveniente da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG) a um advogado chamado Thiago Ferreira de Paula. Segundo ele, o comprador quis pagar em dinheiro e ele simplesmente não havia depositado ainda por causa da “correria de trabalho”. Prometeu fazer o depósito depois.
Aqui começa o problema. A Polícia Federal identificou inconsistências graves nessa versão. A escritura pública da venda foi lavrada em 30 de dezembro de 2025, onze dias após a operação de 19 de dezembro. Ou seja, a documentação que justificaria a posse do dinheiro foi formalizada apenas depois que o dinheiro foi apreendido. O ministro Flávio Dino registrou em sua decisão que existe uma “sombra de inverossimilhança” sobre as justificativas apresentadas para a posse de quase meio milhão de reais em espécie.
Pior ainda: não havia movimentações bancárias compatíveis com a suposta operação imobiliária. A PF não identificou saques de valores contemporâneos à data da compra por parte do advogado. A Procuradoria-Geral da República concordou que o dinheiro “carece de lastro documental idôneo que justifique sua posse e origem lícita”.
A teia se expande
As etiquetas bancárias encontradas junto ao dinheiro permitiram que a PF identificasse contas ligadas a duas empresas: EJUS Empreendimentos Imobiliários e Foco Engenharia e Incorporações. A investigação passou a mirar os empresários Jonas Keslley Gonçalves Umbelino e Jecy Kenne Gonçalves Umbelino, apontados em relatórios do Coaf por movimentações em espécie.
Apenas essas duas empresas realizaram 22 saques que somam R$ 4,7 milhões. Considerando o grupo empresarial mais amplo, os investigadores identificaram 81 saques em espécie que totalizam R$ 15,5 milhões. A PF afirma que as investigações apontam indícios de um esquema envolvendo agentes públicos, particulares e pessoas jurídicas supostamente utilizadas para dar aparência de legalidade à movimentação de recursos públicos.
O carro da filha e o desvio de cota
A investigação também identificou que um veículo utilizado pela filha do deputado, Jenifer Fani Cavalcante, pode ter sido custeado com recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP). O automóvel, um Corolla Cross blindado, foi oferecido em março de 2024 por Adailton Oliveira dos Santos ao deputado pelo valor mensal de R$ 8 mil.
O veículo estava registrado em nome da Amazon Serviços e Construções Ltda, uma empresa cuja atividade principal é construção de edifícios, não locação de carros. Mensagens analisadas pela PF revelam que o próprio Sóstenes se referia ao bem como o “carro da Jenifer”. A dinâmica investigada não se restringia à empresa Harue Locação de Veículos, mas abrangia outras pessoas jurídicas utilizadas para mascarar a real destinação dos recursos públicos, inclusive em proveito pessoal ou familiar.
O padrão
O que a operação revela é um padrão sofisticado de operações. Recursos públicos saem das contas parlamentares, passam por empresas de fachada, são sacados em espécie e reaparecem como justificativas criadas após o fato. Documentação é formalizada depois que a apreensão ocorre. Veículos são registrados em nomes que não correspondem à realidade operacional. Familiares usufruem de benefícios custeados pela máquina pública.
A Polícia Federal, sob autorização do STF, determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados. Flávio Dino autorizou novas buscas e apreensões. O que começou como uma investigação sobre uma empresa de locação de carros evoluiu para uma apuração de peculato, lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa.
Procurado pela assessoria de imprensa, Sóstenes ainda não se manifestou sobre as novas fases da operação. Seu colega de partido, o deputado Carlos Jordy (PL-RJ), que também foi alvo de buscas em fase anterior, havia reagido chamando a ação de “covarde” nas redes sociais.


