O Pix virou símbolo de uma tendência que tira o sono de Washington. A revista britânica The Economist publicou reportagem neste domingo mostrando como o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos representa um movimento global de países desenvolvendo suas próprias infraestruturas financeiras, reduzindo a dependência de gigantes americanas como Visa e Mastercard.
A pressão vem de cima. O representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, acusa o Pix de prejudicar empresas norte-americanas. Esse argumento integra a justificativa do governo Trump para impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Ou seja, o sistema de pagamentos virou peça de uma disputa comercial maior.
Para Visa e Mastercard, o cenário é preocupante. A revista aponta que ambas já alertaram investidores sobre o risco de governos favorecerem sistemas domésticos e vêm investindo pesadamente em infraestrutura europeia e parcerias globais para manter sua posição. Quando gigantes do setor começam a se mexer, é sinal de que algo mudou no tabuleiro.
Os brasileiros, porém, abraçaram o Pix. A população manifestou amplo apoio ao sistema, e até pré-candidatos presidenciais entraram na conversa. Flávio Bolsonaro prometeu preservar o Pix, mas sugeriu que o Brasil evitasse integrar o sistema a redes internacionais que competissem diretamente com a infraestrutura financeira americana. A mensagem é clara: autonomia sim, mas com cuidado.
O que está em jogo vai além de tecnologia. A Economist observa que países agora enxergam infraestrutura de pagamentos como componente estratégico da soberania econômica. Não é apenas sobre transferir dinheiro mais rápido. É sobre controlar seu próprio destino financeiro.
A Europa e a Ásia já se movem nessa direção. A União Europeia expande a Área Única de Pagamentos em Euros, desenvolveu a carteira digital Wero e o Banco Central Europeu planeja lançar um euro digital até 2029. A China ampliou sua rede internacional de pagamentos em yuan e fortaleceu o Cips, alternativa ao sistema interbancário Swift. A Índia expandiu o UPI, seu sistema de pagamentos por QR Code, para diversos países e oferece apoio para que outras nações desenvolvam plataformas próprias.
Mas a revista traz um alerta importante. Essa fragmentação tem custos. A proliferação de sistemas incompatíveis pode aumentar fraudes, dificultar o combate à evasão de sanções e reduzir a eficiência dos pagamentos internacionais. Um estudo citado pela publicação estima que, se essa tendência continuar, a fragmentação financeira poderá reduzir o PIB global em até 2,6% até 2030.


