Deputados argentinos repudiam Milei após ataques ao Brasil em evento do PL

Milei

O presidente argentino Javier Milei escolheu o palco da convenção do Partido Liberal, em São Paulo, para transformar uma visita política em incidente diplomático sem paralelo nos 203 anos de relações entre Brasil e Argentina. No sábado (26), chamou o ministro do STF Alexandre de Moraes de “lixo careca” e o presidente Lula de “presidiário”, tudo durante o evento que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.

O Itamaraty reagiu com firmeza raramente vista na diplomacia brasileira. Convocou o embaixador argentino Daniel Raimondi para dar explicações e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli. Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que “não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro”. O chanceler Mauro Vieira, em entrevista à TV Globo, classificou as falas como “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis”.

Dentro da Argentina, a reação foi imediata. Mais de 30 deputados apresentaram na Câmara de Buenos Aires uma nota formal de repúdio às declarações. O deputado Jorge Taiana, ex-ministro das Relações Exteriores nos governos de Nestor e Cristina Kirchner e ex-ministro da Defesa de Alberto Fernández, liderou a iniciativa. “As declarações de Milei nos envergonham como argentinos”, afirmou. O documento classifica as falas como “flagrante interferência nos assuntos internos de outro Estado” e critica o uso de funcionários de carreira do Ministério das Relações Exteriores argentino na comitiva de Milei, que teve caráter pessoal e partidário, sem qualquer agenda de Estado que justificasse a mobilização.

A aprovação da nota, porém, é improvável. A Comissão de Relações Exteriores da Câmara argentina é liderada por Juliana Santillán Juárez Brhaim, da coalizão A Liberdade Avança, o partido de Milei. A oposição tem apenas 101 dos 257 assentos, embora possa contar com até 49 deputados chamados “flutuantes”.

O ex-presidente Alberto Fernández se manifestou pela rede social X. “Milei foi ao Brasil para gritar como um energúmeno, exigindo ver um golpista preso. Eu fui a Curitiba exigindo a liberdade de um inocente. Hoje Lula é Presidente do Brasil e Bolsonaro está preso por promover um golpe de Estado. Insultar o presidente de um país irmão e principal sócio comercial não tem perdão”, escreveu.

Críticas contínuas

Milei não parou. No dia seguinte, afirmou que o Brasil mantém uma “campanha contra a Argentina” desde a Copa do Mundo, como se a crise fosse problema de futebol. Depois seguiu para Peru e Colômbia, para saudar os presidentes recém-eleitos Keiko Fujimori e Abelardo de las Espriella.

O episódio se encaixa num quadro regional maior. Na América do Sul, apenas Brasil, Uruguai, Guiana e Suriname têm governos de esquerda. Sete países são governados pela direita. A Venezuela, sob Delcy Rodriguez, opera sob influência dos Estados Unidos de Donald Trump. A vitória de Flávio Bolsonaro em outubro coroaria o que esse setor político tenta vender como onda irrefreável destinada a varrer do mapa a esquerda.

Milei viaja pela região como garoto propaganda desse movimento. Ao transformar uma convenção partidária em palco de ofensas a um país vizinho, queimou o que restava de diplomacia moderada e jogou a relação bilateral no gelo. Diplomatas brasileiros avaliam que os ataques representam quebra relevante de protocolo, já que críticas entre chefes de Estado costumam ocorrer em seus próprios países ou em fóruns internacionais, não durante um evento político no território do país alvo.