
O governo de Donald Trump anunciou nesta terça-feira, 4 de agosto, que revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington. Segundo o Departamento de Estado norte-americano, a embaixadora poderá permanecer em solo americano, mas sem visto válido. A justificativa apresentada é a demora do Brasil para aprovar o novo embaixador dos Estados Unidos em Brasília.
Daniel Perez foi indicado pela Casa Branca ao cargo em 1º de junho. Três meses se passaram e o Itamaraty ainda não deu o “sim” que Washington espera. Para entender o tamanho desse desentendimento, vale lembrar que aprovar um embaixador estrangeiro costuma ser uma formalidade burocrática. Quando vira moeda de troca, sinaliza que algo mais profundo está em jogo.
E está. O Itamaraty já esperava esse tipo de retaliação. Nas últimas semanas, o governo brasileiro negou vistos a funcionários americanos, incluindo o chamado “Barnes”. A relação entre os dois países vem se deteriorando em camadas, e essa revogação do visto é apenas a camada mais visível de uma série de agressões que não para de crescer.
A cronologia dos desentendimentos é reveladora. Em maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Washington e se encontrou com Trump, que inclusive elogiou o petista. Dias depois, o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência, foi recebido por Trump e pelo secretário de Estado Marco Rubio nos Estados Unidos. Logo em seguida, Washington anunciou que classificaria o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Coincidência ou cronograma, o fato é que cada gesto de aproximação de um lado era seguido por uma medida de pressão do outro.
Em julho, a situação piorou. Os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros com base na Seção 301 da Lei de Comércio. O argumento foi que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio. Entre os alvos citados estavam o sistema de pagamentos PIX e a regulação de plataformas digitais. Dois dias depois, veio outra tarifa, de 12,5%, dessa vez alegando falta de combate ao trabalho forçado.
Soma-se a tudo isso a iniciativa do governo Trump de enviar funcionários ao Brasil para questionar a integridade das urnas eletrônicas, o que o Itamaraty recebeu com restrições. Negar vistos a esses funcionários foi a resposta brasileira. Revogar o visto da embaixadora foi a resposta americana. A diplomacia entre os dois maiores países das Américas está operando no regime de olho por olho.
O que chama atenção nesse episódio é a dimensão desproporcional. O Brasil burocratiza a entrada de funcionários americanos. Os Estados Unidos, em retaliação, atingem a representação diplomática mais alta do Brasil em Washington.
Para o leitor que acompanha política internacional, o quadro é claro. O governo brasileiro precisa decidir se aprova Perez e tenta desescalar a tensão, ou se mantém a postura de exigir contrapartidas. O problema é que Trump já demonstrou, em diversos episódios, que sua tolerância a sinais de resistência é praticamente nula. Cada dia sem um embaixador americano credenciado em Brasília é um dia a mais nessa espiral.



