A Amazônia registrou a menor área de alertas de desmatamento desde que o Inpe começou a monitorar a floresta, em 2015. Os dados divulgados nesta sexta-feira (7), pelo sistema Deter do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, mostram que a área perdida entre agosto de 2025 e julho de 2026 foi 36% menor que a dos 12 meses anteriores.
Os números foram apresentados durante um evento que marcou os 65 anos do instituto. O presidente Lula aproveitou a ocasião para defender o uso de dados científicos na formulação de políticas públicas, uma alfinetada nada velada num país onde a ciência já foi tratada como inimiga número um do palácio.
Para entender o peso desse número, vale uma explicação rápida. O Deter é um sistema de alerta diário que serve como uma espécie de termômetro para guiar a fiscalização no campo. Não é o dado oficial de desmatamento, que vem de outro sistema, o Prodes, mais preciso e tradicionalmente divulgado em novembro. Mas o Deter tem se mostrado um bom sinalizador de tendências, como explica Cláudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento dos Biomas Brasileiros do Inpe, em entrevista à Folha: existe sempre uma diferença entre os resultados do Prodes e do Deter, pois usam imagens diferentes e metodologias diferentes, mas em geral o Deter aponta bem para onde o vento sopra.
E para onde ele está soprando agora é para uma direção bem diferente daquela do passado recente. No último ano completo do governo Bolsonaro, entre agosto de 2021 e julho de 2022, o Deter registrava 8.590 km² perdidos na Amazônia. Quase três vezes o número atual. A diferença entre um governo que via o Inpe como adversário e outro que o chama para o palco dos 65 anos fala por si.
Cláudio Almeida ressalta ainda que a existência de monitoramento contínuo produz dados que são usados para conceber os planos de combate ao desmate. Ou seja, não é a floresta que decidiu se regenerar sozinha. Há política pública por trás desse número, e a comparação com o período anterior deixa isso bastante claro.
A questão que fica é saber se o resultado se confirma no Prodes, em novembro, e se a tendência se sustenta para além de um ciclo anual. Os dados científicos apontam para uma direção animadora, mas quem acompanha a Amazônia de perto sabe que cada ano conta uma história diferente.


