O presidente Lula conseguiu nesta quarta-feira (12) destravar uma parte importante da agenda que pretende usar na campanha de reeleição. A conquista saiu de uma reunião no Palácio da Alvorada com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que vinha de um período de relações geladas com o Planalto. A conversa também contou com o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, e a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE).
O acordo mais visível é a instalação da comissão mista para analisar a medida provisória que revogou a chamada taxa das blusinhas, aquela tributação sobre compras pequenas vindas do exterior. A regra já vale, mas a MP perde a validade em 8 de setembro se não for votada. A senadora Teresa Leitão confirmou que a comissão da MP das blusinhas está entre seis que serão instaladas. As outras tratam de crédito para a Defesa Civil, mudanças nas regras de moto-frete e mototáxi, redução de prazo do INSS, exame de avaliação médica e adicional para servidores em regiões de fronteira.
Guimarães também sinalizou entendimento com o Congresso para votar um projeto que permite usar receita extraordinária do petróleo para abater tributos dos combustíveis. A ideia é clara: segurar o preço na bomba em ano eleitoral. Ainda há a inclusão de verba para o Profert, programa de desenvolvimento da indústria de fertilizantes, e isenções fiscais para a Copa do Mundo Feminina de 2027. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), combinou com Alcolumbre a votação nas duas Casas ainda nesta semana. “Está tudo destravado. E agora é pé na estrada, diálogo, conversa, para ver o timing para as matérias tramitarem”, resumiu o ministro.
O encontro marca uma virada na relação entre os dois. Tudo tinha desandado quando Lula indicou, contra a vontade de Alcolumbre, o advogado-geral da União Jorge Messias para uma vaga no STF. O Senado rejeitou a indicação e o rompimento parecia consumado. Agora, com a eleição se aproximando, a reaproximação veio como quem nunca rompeu.
A parte que Lula queria mesmo, porém, não saiu. Duas propostas centrais seguem sem data: o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho por um de descanso) e a PEC da Segurança Pública, que amplia a influência do governo federal sobre a área. Líderes ouvidos pela reportagem avaliam que ambas só devem ser votadas depois da eleição. O Congresso funciona nesta semana em regime de esforço concentrado e só volta à atividade entre 31 de agosto e 3 de setembro. Em ano de eleição, deputados e senadores desaparecem em suas campanhas. O segundo semestre é tradicionalmente de votações raras.
Lula ainda manifestou o desejo de aprovar o PL da Misoginia, que equipara o ódio e a aversão às mulheres ao crime de racismo. A proposta foi apadrinhada pela primeira-dama, Janja, que conversou com lideranças do governo nesta terça-feira pedindo apoio. O texto, no entanto, enfrenta resistência entre partidos de centro e, principalmente, na oposição. Críticos afirmam que a medida pode censurar opiniões conservadoras e abrir espaço para restrição da liberdade religiosa. A votação antes da eleição é praticamente descartada.
Quando perguntado se Alcolumbre deu sinais de apoio à reeleição de Lula, Guimarães foi enfático: “Davi está absolutamente sintonizado com a reeleição do Lula e com o nosso palanque lá no Amapá”. Disse também que Lula convidou o senador para o lançamento da campanha em São Bernardo do Campo (SP), no domingo (16). Alcolumbre informou que já tem outra atividade marcada para o mesmo dia. Hugo Motta, presidente da Câmara, já declarou apoio público à reeleição.