Petrobras confirma petróleo na Foz do Amazonas e Lula chama de passaporte para o futuro

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, confirmou neste domingo (17) a descoberta de petróleo no poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. A frase foi um primor de sinceridade corporativa: “Tem petróleo e descoberta, a gente ainda não sabe quanto, mas estamos extremamente otimistas com o que estamos encontrando aqui.” Ou seja, acharam ouro negro, mas ainda não sabem se é uma poça ou um oceano.

A perfuração do poço deve ser concluída nos próximos 15 a 20 dias, e o plano da Petrobras prevê mais três poços na região e cinco em áreas adjacentes. É esse esforço, segundo Chambriard, que vai revelar o real potencial da área.

O poço fica a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, em águas com quase 3 mil metros de profundidade, no bloco FZA-M-59. A Petrobras é dona de 100% da operação, adquirida na 11ª Rodada de Licitações da ANP em 2013. Treze anos depois, enfim, há petróleo confirmado. Mas a descoberta ainda não é comercial. Faltam estudos para saber se vale a pena extrair de fato.

Por que isso importa tanto? Hoje, 80% do petróleo produzido no Brasil vem do pré-sal, aquele gigante subsolo offshore que transformou o país em potência energética. O problema é que o pré-sal vai atingir o pico de produção entre 2034 e 2035. A partir daí, sem novas descobertas, a produção começa a cair. Em outras palavras, a Foz do Amazonas pode ser a reposição de reservas que o Brasil precisa para não perder o lugar entre os dez maiores produtores de petróleo do planeta.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, não economizou nos adjetivos. Chamou a descoberta de histórica e falou em “soberania energética”. O Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, que representa gigantes como ExxonMobil, Shell, TotalEnergies e Equinor, também comemorou. A vizinha Guiana, com geologia parecida, já encontrou volumes enormes de petróleo nos últimos anos, o que ajudou a inflar as expectativas para o lado brasileiro da fronteira.

Até aqui, parece um negócio de família feliz. Mas a história dessa licença tem pontas soltas nada convenientes. O licenciamento do poço Morpho foi cercado de polêmicas. A área técnica do Ibama havia recomendado o arquivamento do processo, ou seja, basicamente disse não. A licença saiu mesmo assim em outubro de 2025, sob pressão direta de Lula, às vésperas da COP30 em Belém. Coincidência no calendário? Difícil acreditar que foi acaso. O presidente concedeu autorização para a Petrobras pesquisar exatamente quando o mundo discutia a redução de combustíveis fósseis na conferência climática mais importante do ano.

Organizações ambientalistas apontaram a contradição na época e seguem apontando. O governo defende a exploração como aproveitamento das riquezas do subsolo brasileiro. Mas na própria COP, Lula propôs medidas para reduzir o consumo de combustíveis fósseis, sem obter êxito. A Petrobras prevê gastar R$ 3,3 bilhões em poços na Foz do Amazonas. É dinheiro público investido em petróleo na mesma conferência que discutia como sair dele.

Lula foi ao Amapá visitar o navio-sonda responsável pela perfuração e segurou um frasco com amostra de óleo. “Isto aqui é o passaporte para o futuro do país”, disse o presidente, que aproveitou para atacar governos anteriores por desinvestimentos na Petrobras e criticar o que chamou de “complexo de vira-lata” dos brasileiros. Também prometeu levar a primeira-dama, Janja, para conhecer uma sonda de perto.

Sobre o meio ambiente, Lula rebateu as críticas afirmando que 87% do estado do Amapá é reserva e 97% do território está praticamente intocado. Suja a mão com óleo e diz que não está negando a luta contra os combustíveis fósseis. Pode até ser sincero. Mas segurar um frasco de petróleo e chamar isso de passaporte para o futuro, na mesma região da Amazônia, enquanto o mundo inteira engrenagens para abandonar o fossil, é no mínimo uma imagem que vai gerar interpretações variadas.