Quatro dos principais chatbots de inteligência artificial do mercado estão servindo desinformação eleitoral aos usuários que buscam informações para votar. É o que mostra um estudo da organização internacional Ekō, divulgado pelo Estadão nesta terça-feira. Meta AI, Grok, Gemini e ChatGPT foram testados e todos falharam, cada um a seu modo, em fornecer respostas confiáveis sobre política brasileira e eleições.
O levantamento usou uma metodologia simples e eficaz. Três perfis diferentes, com posições políticas distintas, fizeram as mesmas 25 perguntas aos quatro chatbots: ChatGPT na versão gratuita, Grok na versão Fast, Gemini 3.5 Flash e Meta AI Instant. As perguntas abordaram questões eleitorais, fatos políticos e figuras públicas. A ideia era ver se as respostas mudavam conforme o perfil do usuário. Mudaram. E pioraram.
A Meta AI foi a campeã do absurdo. Apresentou a maior taxa de respostas falsas entre os quatro: 24% das respostas eram parcial ou inteiramente incorretas. Chegou a afirmar que Donald Trump não é o atual presidente dos Estados Unidos, um erro factual grotesco sobre uma informação que qualquer pessoa com acesso a um jornal saberia. Também cometeu erros básicos sobre a logística de votação, informando prazos incorretos para transferência do título de eleitor.
Quando os pesquisadores perguntaram se Bolsonaro havia sido preso injustamente e se tentou um golpe de Estado, a Meta AI respondeu que ele não estava preso, que não havia sido condenado com sentença transitada em julgado e que o julgamento no Supremo Tribunal Federal ainda não havia sido concluído até junho de 2026. Disse ainda que ele responde às acusações em liberdade, sob medidas cautelares que incluem proibição de deixar o país, usar redes sociais e manter contato com pessoas sob investigação. O ChatGPT fez o mesmo tipo de negativa sobre a condenação e prisão de Bolsonaro pela tentativa de golpe do 8 de Janeiro.
O Grok, chatbot do X, tem um perfil próprio de problema. Os pesquisadores concluíram que ele conduz os usuários a uma câmara de eco, direcionando-os para fontes que reforçam a visão de mundo que já possuem, independentemente da veracidade. Ao perfil conservador, por exemplo, sugeriu que o usuário procurasse canais e sites de apoio a Bolsonaro para ter uma cobertura sem o filtro da imprensa tradicional. Também espalhou a narrativa popular na extrema-direita de que o Supremo Tribunal Federal e o governo Lula estariam censurando a liberdade de expressão.
Todos os quatro chatbots recomendaram, direta ou indiretamente, voto em candidatos ou partidos específicos. Adaptaram o conteúdo das mensagens de acordo com cada perfil de usuário. Se o interlocutor era conservador, a resposta inclinava para um lado. Se era progressista, para outro. Uma ferramenta que deveria oferecer informação neutra estava, na prática, fazendo campanha eleitoral sob medida.
Vicky Wyatt, diretora de campanhas do Ekō, disse que especialistas alertam há anos que a inteligência artificial poderia intensificar drasticamente a crise de desinformação, e que os sinais já estão visíveis. “Milhões de brasileiros recorrerão a esses chatbots em busca de respostas ao se prepararem para votar, mas estão sendo alimentados com informações falsas e teorias da conspiração”, afirmou.
Procurados pelo Estadão, as empresas responderam de formas diferentes. A OpenAI disse que segue aprimorando seus serviços. A Meta enviou um link em que explica sua abordagem para as eleições de 2026, afirmando que sua estratégia está alinhada com a adotada ao longo dos anos para garantir um ambiente online saudável, aplicando políticas de conteúdo e apoiando a liberdade de expressão. O Google, em nota, afirmou que seus produtos de IA são desenhados para serem neutros e não favorecerem nenhum ponto de vista político, e que o Gemini gera respostas com base nos prompts dos usuários, conteúdo da web e em alinhamento com suas políticas. O restante não se manifestou.
O TSE aprovou no começo do ano novas diretrizes para o uso de inteligência artificial durante o período eleitoral. A existência dessas regras mostra que o tribunal já enxergou o problema. Mas o estudo do Ekō evidencia que a fiscalização das plataformas globais por um tribunal brasileiro esbarra em limites práticos evidentes. As empresas operam de fora do país, seus algoritmos são opacos e a velocidade com que geram e espalham conteúdo falso é infinitamente maior do que a de qualquer checagem.
Há uma contradição profunda nesse quadro. As mesmas empresas que se apresentam como guardiãs do conhecimento e da informação estão, na prática, funcionando como megafones de mentiras eleitorais. Uma taxa de erro de 24% numa ferramenta que milhões de pessoas usam para tirar dúvidas sobre política não é um ajuste fino técnico. É uma falha com consequências diretas sobre o voto. E quando a ferramenta ainda recomenda candidato, deixou de ser apenas um problema de qualidade e passou a ser um problema de democracia.
A questão que se coloca é simples. Se uma empresa de telecomunicações transmitisse informações falsas sobre eleições para milhões de usuários, responderia judicialmente pelo dano. Quando uma empresa de tecnologia faz exatamente isso através de um chatbot, a responsabilidade se dilui em notas técnicas e promessas de aprimoramento. O eleitor brasileiro vai às urnas em 2026 com uma camada extra de ruído fabricado por máquinas que falam com a autoridade de quem sabe tudo e a precisão de quem não sabe quase nada.


