Por Cleber Lourenço/ICL Notícias
O caso Dark Horse completa cem dias nesta sexta-feira (21) em meio à investigação aberta pela Polícia Federal, novos elementos sobre a relação entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o entorno empresarial de Daniel Vorcaro, mas sem a divulgação dos contratos que o candidato à Presidência prometeu tornar públicos em maio.
O principal compromisso assumido pelo próprio Flávio quando o caso veio à tona também permanece pendente. O senador jurou abrir o contrato do financiamento, anunciou uma prestação de contas detalhada e chegou a estabelecer prazo de 30 dias para apresentá-la. Passado mais que o triplo do tempo estipulado, os documentos não foram divulgados integralmente e o candidato passou a tratar o episódio como “página virada”.
Os cem dias são contados desde 13 de maio, quando uma investigação do The Intercept Brasil revelou áudios, mensagens e documentos sobre a negociação de recursos entre Flávio e Vorcaro. O inquérito policial só foi autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 23 de julho e completa 29 dias nesta sexta-feira.
A reportagem apurou que até o início desta semana a Polícia Federal não havia encaminhado ao gabinete de Mendonça pedidos de quebra de sigilo bancário ou telemático, busca e apreensão, prisão ou outras medidas invasivas relacionadas ao inquérito.
A investigação segue em andamento na PF. Em julho, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) chegou a pedir à corporação quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do escritório ligado a Flávio, além de busca e apreensão, mas até o período consultado pela reportagem a PF não havia levado requerimentos desse tipo ao Supremo.
O estágio ainda inicial do inquérito, porém, não altera a cobrança sobre Flávio. A PF pode precisar de diligências, perícias e autorizações judiciais para descobrir por conta própria o caminho do dinheiro. Já o senador não precisa de nenhuma delas para apresentar aquilo que prometeu voluntariamente tornar público. Passados cem dias, continuam sem divulgação integral o contrato do financiamento e os documentos capazes de identificar a origem dos aportes e demonstrar, de forma verificável, a destinação dos recursos atribuídos a Vorcaro.
O ICL Notícias revelou também que a relação de Flávio com Vorcaro em torno do filme não fazia parte originalmente das investigações sobre o Banco Master. O caso entrou no radar das autoridades depois da reportagem do Intercept, que teve entre seus autores o jornalista Paulo Motoryn. A partir da publicação, representações começaram a chegar aos órgãos de investigação e controle.
Em 26 de maio, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, confirmou ao ICL Notícias que a corporação havia recebido uma representação parlamentar e que sua área técnica analisava o material. Foram 71 dias entre a primeira reportagem e a abertura do inquérito. Nesse intervalo e nas semanas seguintes, surgiram outros elementos sobre a relação entre Flávio e o entorno de Vorcaro, entre eles R$ 1,5 milhão em notas fiscais emitidas pelo escritório ligado ao senador para empresas associadas à estrutura empresarial do ex-controlador do Master.
Do financiamento milionário ao inquérito
A reportagem publicada em 13 de maio mostrou que Flávio havia participado diretamente da negociação para captar recursos de Vorcaro para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. As conversas indicavam um compromisso de até US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação daquele período. Ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025 para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos e utilizado na estrutura financeira da produção.
Segundo os registros revelados, Flávio e Vorcaro tiveram contato a partir de dezembro de 2024. Nos meses seguintes, as conversas passaram a incluir acompanhamento e cobrança de pagamentos. Documentos que posteriormente chegaram ao STF reproduziram informações segundo as quais o senador solicitava recursos e acompanhava os repasses, inclusive diante de atrasos relacionados a compromissos da produção com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.
Ao ser procurado antes da publicação, Flávio inicialmente classificou a informação como “mentira”. Depois da divulgação dos áudios, confirmou ter buscado recursos com Vorcaro e afirmou que se tratava de financiamento privado para um filme privado. Negou ter recebido dinheiro ou comissão e afirmou não ter oferecido qualquer contrapartida ao banqueiro.
Em 15 de maio, dois dias depois da revelação, Flávio disse estar “100% disposto” a tornar público o contrato de investimento. Quatro dias depois, anunciou ter solicitado uma prestação de contas completa da produção, com prazo de 30 dias. O contrato não foi divulgado e, posteriormente, a defesa da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, apresentou uma perícia privada que declarou custo de aproximadamente US$ 13,4 milhões, cerca de R$ 75 milhões, com US$ 13,3 milhões em aportes do Havengate.
O laudo não identificou nominalmente os financiadores finais do fundo, e Vorcaro não aparece como financiador no documento. Os valores conhecidos desde maio também variam: a negociação inicial chegava a US$ 24 milhões; Flávio afirmou posteriormente que Vorcaro havia investido pouco mais de US$ 12 milhões; as transferências reveladas somavam ao menos US$ 10,6 milhões; e a perícia apontou US$ 13,3 milhões em aportes do Havengate.
A Polícia Federal passou a analisar o material depois da publicação e posteriormente solicitou a abertura de um inquérito. O pedido recebeu manifestação favorável do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e foi autorizado por Mendonça em 23 de julho. A investigação apura a origem, movimentação e destinação dos recursos vinculados ao filme, além de eventuais contrapartidas relacionadas aos repasses. Uma das linhas é verificar se parte do dinheiro teve finalidade diferente da produção, inclusive eventual utilização em atividades de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio e Eduardo negam.


