O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou em sua proposta de delação premiada que a doação de R$ 5 milhões para as campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2022 teve origem em propina. A informação foi revelada nesta quinta-feira (3) em reportagem de Fabio Serapião, Natália Portinari, Artur Rodrigues e Cézar Feitoza, no UOL. Na campanha de 2022, Tarcísio recebeu R$ 2 milhões e Bolsonaro R$ 3 milhões em doações formais de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e um dos investigados na operação Compliance Zero.
Segundo Vorcaro, essas doações foram “contrapartidas financeiras” pagas após um “ajuste indevido com Gilberto Kassab para a manutenção do Credcesta no governo Tarcísio”. O Credcesta é um cartão de crédito consignado para servidores públicos operado pela PKL One Participações, empresa associada ao Banco Master e ligada a parentes de Augusto Lima, sócio de Vorcaro. Em março de 2022, o governo de São Paulo, sob comando de João Doria, autorizou empresas como a PKL a oferecer crédito consignado aos servidores paulistas. Em julho daquele ano, já no governo Rodrigo Garcia, o Credcesta começou a operar e virou um dos principais negócios do grupo.
A engrenagem funciona assim: com a eleição se aproximando e Tarcísio aparecendo como provável vencedor, Augusto Lima, responsável pela expansão do Credcesta dentro do banco, buscou garantir a continuidade do negócio no novo governo. Para isso, se aproximou de Gilberto Kassab, que apoiava a campanha de Tarcísio e depois foi nomeado secretário de Governo de São Paulo. Hoje, Kassab é candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado.
Na versão de Vorcaro, o acordo com Kassab previa o repasse de 5% do resultado líquido da operação do Credcesta em São Paulo e contribuições para campanhas políticas do PSD e partidos aliados. O banqueiro conta que Kassab ou seus interlocutores informaram a Lima que precisavam cumprir compromissos com partidos parceiros e que, nesse caso, somente aceitariam doações oficiais. Ou seja, a propina teve que vestir roupa de doação eleitoral para passar na fiscalização.
O acordo previa duas partes. A primeira era a doação formal de R$ 5 milhões, sendo R$ 2 milhões para Tarcísio e R$ 3 milhões para Bolsonaro. A segunda era um caixa dois de cerca de R$ 10 milhões em dinheiro vivo, entregue a pessoas interpostas de Kassab por Thiago Botelho, conhecido como Papel. Esse valor em espécie seria destinado às campanhas do PSD. Vorcaro afirma que acionou Zettel para as doações formais porque Augusto Lima tinha relação próxima com o PT e não podia doar oficialmente a adversários. Sobre Zettel, o banqueiro diz que ele não tinha conhecimento das reais motivações do pagamento.
A contrapartida prometida se concretizou. O Credcesta foi mantido no governo de São Paulo pelo Master por mais de um ano. Somente em 9 de dezembro de 2024, Tarcísio editou o Decreto nº 69.126/2024, que ampliou o mercado de crédito consignado para outras instituições. Até lá, o negócio esteve protegido.
Tarcísio respondeu por nota que “nunca teve qualquer contato ou relação com Daniel Vorcaro e não tem conhecimento do fato mencionado pela reportagem”. Disse ainda que a campanha de 2022 contou com mais de 600 doadores e que a prestação de contas foi aprovada pela Justiça Eleitoral. Kassab foi mais enfático: disse “refutar o relato de Vorcaro com veemência” e afirmou nunca ter tratado de doações com Augusto Lima ou Vorcaro. Disse que não tem qualquer relação com o ex-banqueiro e nunca falou com ele, pessoalmente ou por telefone.
A questão que se coloca é simples e desconfortável. Vorcaro é um delator que tenta emplacar a terceira versão de sua delação. Pode ter interesse em negociar nomes para obter benefício. Mas o que ele descreve tem uma lógica interna que combina com o que já se sabe do caso Master. Um banqueiro investigado por fraudes financeiras não costuma doar milhões por convicção ideológica. Doador de campanha com negócio ativo no governo estadual e relação com o secretário de Governo não é filantropo. É investidor esperando retorno.


