BolsoMaster: Doleiro delata repasse de R$ 61 milhões para fundo que financiou filme de Bolsonaro

Cena do filme Dark Horse

O empresário e doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, afirmou em acordo de delação premiada ter enviado mais de US$ 12 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões na cotação atual, para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, usado para financiar a produção de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro com lançamento previsto para depois das eleições. A informação é do colunista Cézar Feitoza, no UOL.

A delação foi homologada hoje pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, após audiência em que o colaborador confirmou ter aderido ao acordo firmado com a Procuradoria-Geral da República de forma voluntária. Freixo Júnior é apontado como um dos operadores financeiros ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Em sua colaboração, ele detalhou as transferências realizadas pela empresa Entre Investimentos e Participações para o fundo americano.

Segundo o relato do doleiro, os repasses foram determinados por Vorcaro após pedidos e cobranças do senador Flávio Bolsonaro, apontado como um dos idealizadores do projeto cinematográfico. A descrição é direta: o banqueiro mandava o dinheiro porque o senador pedia e cobrava. Freixo Júnior prestou depoimento ontem, 8 de setembro, no gabinete de Mendonça, acompanhado de seu advogado. A defesa do doleiro, procurada pela reportagem, disse que mantém a confidencialidade sobre as informações prestadas pelo cliente.

A delação não se limita ao filme. O colaborador também descreveu supostos esquemas de pagamento de propina a políticos. Os nomes dos envolvidos permanecem sob sigilo por determinação da PGR e do próprio STF. É razoável supor que esse silêncio proteja pessoas cuja revelação teria impacto imediato no cenário político, mas não há como afirmar nada além do que está nos autos.

Para entender o tamanho dessa história, é preciso lembrar o caminho que ela percorreu. Mensagens e áudios obtidos pelo site Intercept Brasil mostraram Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Vorcaro para financiar o filme. Numa gravação de novembro de 2025, o senador diz ao banqueiro que as parcelas estão atrasadas e que está “em um momento decisivo do filme”. A conversa aconteceu um dia antes de Vorcaro ser preso.

A reação inicial de Flávio foi negar tudo. “É mentira, de onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus”, disse ao ser questionado por um repórter do Intercept. Depois que os áudios vieram a público, o senador mudou o discurso, confirmou a negociação e classificou o repasse como patrocínio privado, sem irregularidades. Acontece que patrocínio de R$ 61 milhões movido por um doleiro a pedido de um senador, via fundo no Texas controlado por aliados do seu irmão, não é exatamente o que se chama de patrocínio comum.

Pelo menos US$ 10.6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. Parte desse dinheiro foi transferida pela empresa de Freixo, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. O ex-deputado mora nos Estados Unidos desde março de 2025, atuou como produtor-executivo do filme e tinha poder sobre a gestão financeira do projeto, conforme contrato também obtido pelo Intercept. A Polícia Federal quer apurar se os recursos bancaram despesas pessoais de Eduardo no país, o que ele nega.

A empresa produtora Go Up contratou uma perícia particular que apontou o custo da cinebiografia em cerca de R$ 75 milhões, inteiramente financiados pelo fundo estrangeiro. O problema é que o documento apresentado pela defesa e pela auditoria não tornou públicos detalhes como notas fiscais ou a origem exata de todos os recursos. Em outras palavras, disseram quanto custou, mas não explicaram de onde veio cada centavo. A diferença entre um e outro é o que separa uma prestação de contas de uma apresentação de slides.

Há ainda um desdobramento que pode ganhar proporção nas próximas semanas. O ministro André Mendonça também deve decidir nos próximos dias sobre a homologação da colaboração premiada de João Carlos Mansur, dono da Reag Investimentos, empresa que aparece na investigação da Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de beneficiários finais de operações financeiras. Se Mansur fechar um acordo semelhante ao de Freixo, o volume de informações sobre o esquema pode dobrar.

O que essa delação confirma é algo que os áudios já haviam escancarado. O filme sobre Jair Bolsonaro não foi financiado por fãs entusiasmados nem por investidores cinematográficos tradicionais. Foi bancado por um banqueiro sob investigação, operado por um doleiro, a pedido de um senador, através de um fundo offshore no Texas controlado por aliados do irmão produtor. Quando a oposição brasileira fala em liberdade de expressão e combate à censura, talvez devesse incluir nesse pacote a liberdade de explicar de onde saíram R$ 61 milhões para produzir um filme político no exterior.