O Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o Ifop, a ONG que recebeu a emenda de R$ 200 mil do senador Flávio Bolsonaro a pedido do miliciano Peixe, também foi beneficiada com R$ 300 mil da deputada federal Chris Tonietto (PL-RJ) e R$ 1,5 milhão do próprio Chiquinho Brazão. A informação é do blog de Malu Gaspar, no O Globo, publicada nesta quinta-feira (24).
Todas as verbas foram enviadas em 2023 e são os únicos recursos públicos recebidos pela entidade até hoje. Segundo a Polícia Federal, quem intermediou os recursos angariados junto a Flávio foi o miliciano Robson Calixto, conhecido como Peixe, condenado pela execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. As emendas de Flávio e de Chris Tonietto, destinadas à compra de chuteiras para um projeto esportivo infantil, foram alvo de uma operação da PF realizada em julho deste ano.
A investigação quer apurar se os recursos públicos foram desviados por meio de pagamentos indevidos. O telefone de Peixe foi apreendido em 2024, durante uma diligência sobre o assassinato de Marielle. Nele, a conversa já conhecida da reportagem da piauí: em outubro de 2023, o miliciano escreveu a Maria de Fátima Bezerra, assessora de Flávio conhecida como Fafá: “amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar”. A assessora respondeu convidando o miliciano para um evento em que o senador estaria presente no Rio e orientou: “leva o deputado (Chiquinho)”. E completou: “Você vai também e reforça o pedido com o senador.”
O caso Marielle atravessa toda essa história. Peixe foi preso em maio de 2024. Em delação premiada, Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora, afirmou que Peixe foi o responsável por adquirir a submetralhadora HK MP5 usada para matar Marielle e o motorista Anderson Gomes. Em fevereiro deste ano, a Primeira Turma do STF condenou Peixe a nove anos de prisão. Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados a 76 anos e três meses por organização criminosa armada, dois homicídios qualificados e um homicídio qualificado tentado. Peixe também foi denunciado pela PGR por organização criminosa.
Procurados, o gabinete de Flávio Bolsonaro respondeu que “a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”. A ONG disse que contratou em 2022 uma assessoria especializada em captação e esteve “em todos os gabinetes dos parlamentares tanto do Senado, quanto da Câmara”, ressaltando nunca ter tido contato direto com Flávio.
Vale lembrar que a emenda não nasceu de um formulário genérico de captação. Nasceu de uma mensagem de WhatsApp de um miliciano condenado no caso Marielle, atendida por uma assessora do gabinete, reforçada pessoalmente em evento com o senador e com a presença do depois condenado mandante do crime. O parlamentar que decide onde o dinheiro público vai, por indicação de quem decide, é responsabilidade dele sim. O argumento da entidade beneficiária funciona para quem nunca olhou as mensagens. Para quem olhou, soa como o senador tentando lavar as mãos com a mesma água em que seus interlocutores se lavaram.
A tese da assessoria especializada, por sua vez, tropeça no próprio registro. Se o Ifop visitou todos os gabinetes do Congresso, por que os únicos recursos que conseguiu captar em toda a sua existência vieram exatamente de três nomes do PL, num caso em que o intermediador é um miliciano do círculo dos Brazão? Acaso assim só existe em romance.


