Polícia Federal faz buscas na Rioprevidência e descobre R$ 1 bilhão desaparecido em fundos do Banco Master
Data: 23 de janeiro de 2026
A Polícia Federal acordou cedo nesta sexta-feira para cumprir mandados contra o presidente e diretores do Rioprevidência. Enquanto isso, quase um bilhão de reais que deveriam garantir a aposentadoria de 235 mil servidores do Rio de Janeiro estava sumindo em fundos de risco do Banco Master.
A operação, batizada de Barco de Papel, saiu para investigar como R$ 970 milhões de dinheiro público foram parar em aplicações financeiras que a PF considera “irregulares” e que “expuseram o patrimônio da autarquia a risco elevado”. Traduzindo para o português claro: alguém colocou a aposentadoria de centenas de milhares de pessoas em um barco de papel. Literalmente.
O presidente Deivis Marcon Antunes era o alvo principal. Agentes foram até sua casa em Botafogo e precisaram pular o portão para entrar. Detalhe importante: Deivis não estava lá. Ele embarcou para os Estados Unidos no dia 15. Coincidência? Talvez. Mas a PF não acha que seja.
Também na mira estão Eucherio Lerner Rodrigues e Pedro Pinheiro Guerra Leal, ambos ex-diretores de investimentos. Na casa de Eucherio, os agentes encontraram R$ 3.760 em notas novas dentro de uma mochila.
Agora vem a parte que deveria fazer qualquer pessoa ficar furiosa. O Rioprevidência é responsável por pagar aposentadorias e pensões a 235 mil pessoas. Esse dinheiro vem de descontos em folha de servidores públicos. É o suor do trabalho de gente que confiou que seu dinheiro seria investido com segurança. E o que aconteceu? Nove operações financeiras entre novembro de 2023 e julho de 2024 jogaram quase um bilhão de reais em fundos administrados pelo conglomerado de Daniel Vorcaro.
Para você entender a gravidade disso, preciso explicar como funciona esse jogo. O Rioprevidência deveria investir em instrumentos seguros, com garantias reais. Mas em vez disso, colocou 25% de todos os seus recursos em fundos do Banco Master. Um deles, o Arena Fundo de Investimento, começou a operar em 18 de dezembro de 2024. No dia seguinte, o Rioprevidência depositou R$ 50 milhões. Depois vieram mais aportes. E mais. E mais. Até ultrapassar R$ 1 bilhão. O Rioprevidência era o único cotista. Sozinho. Investindo sozinho em um fundo que começava do zero.
A rentabilidade? 4,05%. Enquanto isso, a poupança rendia 5,47% e o CDI (a taxa básica de referência do mercado) oferecia 9,31%. Ou seja, o fundo do Banco Master rendeu menos que a poupança. Muito menos que o mercado. E o Rioprevidência colocou um bilhão lá dentro. Alguém pode me explicar a lógica?
Tem mais. Os técnicos do Tribunal de Contas encontraram aportes de mais de R$ 300 milhões em letras financeiras sem qualquer informação disponível. Letras financeiras são basicamente empréstimos a instituições financeiras. Você empresta dinheiro e recebe juros. Mas quando não há informação disponível sobre o que está sendo feito com esse dinheiro, você tem um problema. Um problema grande.
Outro exemplo que ilustra bem o caos: em junho, o Rioprevidência investiu R$ 100 milhões em um fundo. Um mês depois, aquele investimento valia apenas R$ 75 milhões. Desapareceram R$ 25 milhões em trinta dias. O Tribunal de Contas chamou isso de “gestão possivelmente irresponsável dos recursos do regime previdenciário”. Eu chamaria de algo mais forte, mas vou respeitar as instruções.
O Tribunal de Contas já tinha soado o alarme. Em maio, alertou para “graves irregularidades”. Em outubro, voltou à carga e determinou uma tutela provisória com apensação, impedindo o Rioprevidência de fazer novas transações com o Master. Basicamente, o Tribunal disse: parem agora, e depois a gente resolve tudo junto. O conselheiro Jose Gomes Graciosa foi direto ao ponto: “Chega de decisões sem transparência, chega de colocar em risco a aposentadoria daqueles que colaboraram com a construção deste estado”.
Mas aqui está o nó da questão. Enquanto o Tribunal de Contas fazia suas advertências, o dinheiro continuava desaparecendo. Enquanto isso, o Rioprevidência dizia que estava “em negociação para substituir as letras por precatórios federais”. Negociação. Enquanto isso. Enquanto 235 mil pessoas dormiam achando que sua aposentadoria estava segura.
A operação da PF não é sobre números em uma planilha. É sobre gente que trabalhou a vida toda, pagou seus impostos, fez sua parte, e agora vê seu futuro financeiro sendo jogado em um barco de papel. É sobre confiança quebrada. É sobre a diferença entre investimento prudente e roubo institucionalizado.
O que fica claro é que alguém sabia exatamente o que estava fazendo. Ninguém coloca um bilhão de reais em um fundo que começa do zero por acaso. Ninguém escolhe rentabilidade abaixo da poupança por ignorância. Ninguém desaparece para os Estados Unidos dias antes de uma operação da PF por coincidência. Cada movimento tem uma intenção. E a intenção aqui parece ser bem clara: tirar dinheiro de quem não pode se defender.




