EUA cancelam vistos de funcionários brasileiros ligados ao Mais Médicos
Data: 15 de agosto de 2025
O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou nesta terça-feira (13) o cancelamento dos vistos de dois importantes funcionários do governo brasileiro que participaram da implementação do Programa Mais Médicos. A medida atinge Mozart Sales, atual secretário de atenção especializada à saúde, e Alberto Kleiman, ex-assessor de assuntos internacionais do Ministério da Saúde.
As autoridades americanas justificam a decisão alegando que os dois funcionários, juntamente com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), foram cúmplices na exploração de médicos pelo governo de Cuba. A acusação se refere ao período em que o programa trouxe milhares de profissionais cubanos para atuar em regiões carentes do Brasil.
O Programa Mais Médicos foi criado em 2013, durante o governo de Dilma Rousseff, com o objetivo de suprir a carência de profissionais de saúde no interior do país e nas periferias das grandes cidades. O acordo tripartite envolvia o Brasil, que financiava a iniciativa, Cuba, que fornecia os médicos, e a OPAS, responsável pela coordenação operacional.
Sob essa estrutura, o governo brasileiro repassava recursos à OPAS, que posteriormente transferia os valores para Cuba. Em contrapartida, o governo cubano enviava médicos para trabalhar em unidades básicas de saúde em áreas onde havia escassez de profissionais. O programa chegou a contar com mais de 18 mil médicos cubanos atuando em território nacional.
A parceria com Cuba foi encerrada abruptamente em novembro de 2018, quando o governo de Havana decidiu retirar seus profissionais do Brasil. A decisão ocorreu após declarações do então presidente eleito Jair Bolsonaro, que criticou o programa e exigiu que os médicos cubanos revalidassem seus diplomas no país.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reagiu às sanções americanas defendendo tanto os funcionários quanto o programa. Em nota oficial, Padilha declarou que “os dois profissionais foram fundamentais para o Mais Médicos” e que o programa “salva vidas e sobreviverá a ataques injustificáveis”.
O cancelamento dos vistos representa uma escalada nas tensões diplomáticas e reflete a política externa americana em relação a Cuba, país com o qual os Estados Unidos mantêm um histórico de conflitos diplomáticos. As autoridades americanas frequentemente criticam iniciativas que consideram benéficas ao governo cubano, utilizando sanções e restrições de visto como ferramentas de pressão política.
Para os funcionários brasileiros afetados, a medida significa a impossibilidade de viajar aos Estados Unidos, o que pode impactar futuras negociações e cooperações internacionais na área da saúde. A decisão também levanta questionamentos sobre os limites da interferência de países terceiros em acordos bilaterais de cooperação humanitária.
Apesar das controvérsias e do fim da participação cubana, o Programa Mais Médicos continua ativo. Atualmente, a iniciativa conta com médicos brasileiros formados no exterior e profissionais de outras nacionalidades para atender regiões com carência de profissionais de saúde.
A situação expõe os desafios da cooperação internacional em saúde em um cenário geopolítico cada vez mais complexo, onde programas humanitários podem se tornar alvos de disputas políticas mais amplas. O caso também ilustra como questões de saúde pública podem se entrelaçar com relações diplomáticas e estratégias de política externa.
O governo brasileiro ainda não anunciou se pretende tomar medidas retaliatórias ou buscar canais diplomáticos para reverter a decisão americana. A resposta do país poderá influenciar futuras cooperações internacionais e definir os rumos da política de saúde externa brasileira.




