Governo anuncia retaliação aos EUA mas adia lei de reciprocidade até após eleições

O presidente Lula

Depois dos Estados Unidos anunciarem nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros na quinta-feira, o governo federal publicou uma nota prometendo acionar “imediatamente” os instrumentos da Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional. O tom era de firmeza. Na prática, ninguém no Palácio do Planalto tem pressa de realmente aplicar a medida.

Segundo um auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil precisa ser cuidadoso para não dar um tiro no próprio pé ao impor a reciprocidade. A tradução é simples: o anúncio funciona mais como ferramenta de pressão nas negociações do que como promessa de retaliação concreta. A expectativa dentro do governo é que nenhuma iniciativa nesse sentido entre em vigor antes da eleição de outubro.

A nova tarifa americana parte de uma acusação pesada. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) decidiu taxar produtos brasileiros com o argumento de que o país falha ao coibir a importação de itens vinculados a trabalho forçado. O Brasil não está sozinho no alvo: 60 países foram investigados. Mesmo assim, o país lidera um ranking nada honroso, com o maior aumento percentual de tarifas durante o segundo mandato de Trump. A lista de produtos atingidos tem 471 itens isentos, o que mostra que o tarifaço foi desenhado com precisão cirúrgica para atingir setores específicos.

O governo brasileiro já esperava pelo golpe. Em nota divulgada após o anúncio do USTR, o Planalto classificou as tarifas de “completamente arbitrário e injustificado” e anunciou a mobilização imediata dos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade. A indignação foi real. A estratégia por trás dela é de paciência.

Integrantes do governo explicam que a reciprocidade só será aplicada a produtos que não prejudiquem a economia brasileira. E que, antes de qualquer medida, os empresários serão ouvidos. Faz sentido. Na semana passada, depois de se reunir com o vice-presidente Geraldo Alckmin para discutir o tarifaço anterior de 25%, o setor de máquinas e equipamentos se posicionou contra o uso da Lei de Reciprocidade. A indústria defendeu que a saída para o impasse comercial passa pela negociação, não pela revanche. Instituições e entidades do setor produtivo reforçaram o pedido de que o governo aposte no diálogo em vez de escalada.

Ainda assim, o Planalto estuda alternativas previstas na própria lei que não envolvam taxar produtos americanos diretamente. Uma delas é suspender obrigações de propriedade intelectual de produtos dos EUA, bloqueando remessas de royalties. Outra possibilidade é impor taxas apenas a produtos que tenham similares fabricados por outros países. Tudo calculado para não machucar a competitividade nacional nem o bolso do consumidor.

O roteiro traçado pelo governo só mudaria se os Estados Unidos adotassem novas medidas de retaliação. Nesse cenário, a resposta brasileira seria imediata. Até lá, a tática é manter a ameaça no ar sem acionar o gatilho.

Enquanto aguarda, o Brasil aposta em outra frente: diversificar mercados. A aposta principal está nos acordos de livre comércio do Mercosul. O bloco já assinou um acordo com a União Europeia e abriu negociações com Japão e Canadá, com expectativa de retomada das conversas com os canadenses. A China também entra como peça central nessa estratégia de compensar a sobretaxa imposta pelos americanos, expandindo as vendas para o mercado asiático.