A ala democrata do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos acusou o governo de Donald Trump de propagar teorias conspiratórias sobre as eleições presidenciais brasileiras. A denúncia foi reportada pela coluna de João Paulo Charleaux no UOL.
O episódio tem como fio condutor dois funcionários do governo americano, Riley Barnes e Samuel Samson, que supostamente teriam a missão de viajar a Brasília para lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Quem revelou a história foi o jornal The Washington Post, em reportagem publicada no sábado (26). Os dois não chegaram a embarcar porque o Itamaraty negou os vistos uma semana antes. O governo americano reagiu chamando as suspeitas de “mentira sem fundamento.”
Na segunda-feira (27), 11 senadores democratas publicaram uma manifestação na conta oficial da minoria democrata do Comitê de Relações Exteriores no X. O perfil é administrado pela senadora Jeanne Shaheen, de New Hampshire, que está no cargo há 16 anos. O texto não poupa palavras: “propagar teorias conspiratórias sobre as eleições não torna a América mais segura. Isso corrói a confiança em nossa democracia internamente e afasta nossos amigos no exterior.”
Shaheen destacou um trecho da reportagem do Washington Post que sintetiza o absurdo da situação com elegância e veneno: “costumávamos empregar poder em situações de risco para a democracia, mas agora enviamos indicados políticos para desacreditar o sistema eleitoral de outro país.”
A senadora lidera um grupo que inclui nomes como Chris Coons, Chris Murphy, Tim Kaine, Jeff Merkley, Cory Booker, Brian Schatz, Chris Van Hollen, Tammy Duckworth e Jacky Rosen. Todos do Partido Democrata, todos na oposição a Trump. Eles formam a minoria da comissão, que conta ainda com 12 senadores republicanos. A declaração, portanto, não é uma posição oficial do Senado, mas uma cobrança de quem está de fora do poder.
A história fica mais nítida quando se conectam os pontos. Questionar o sistema eleitoral virou uma espécie de marca registrada tanto de Trump quanto da família Bolsonaro. Em julho de 2022, quando ainda era presidente e tentava a reeleição, Jair Bolsonaro convocou diplomatas estrangeiros em Brasília para espalhar acusações infundadas sobre as urnas eletrônicas. A atitude lhe custou caro: foi condenado à inelegibilidade até 2030.
Pois a mesma jogada foi reproduzida pelo filho mais velho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro, em evento com representantes estrangeiros no dia 21 de julho. Como se não bastasse, Trump publicou uma foto ao lado de Flávio no Salão Oval da Casa Branca, no mesmo dia em que anunciou medidas hostis contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A coincidência não parece acidental.
O movimento dos senadores americanos não está sozinho. No mesmo dia, mais de 30 deputados argentinos propuseram uma nota de repúdio ao presidente Javier Milei por ele ter viajado a São Paulo no sábado (26) para participar de evento eleitoral de Flávio Bolsonaro. Na ocasião, Milei chamou o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca” e Lula de “presidiário.”
Para os deputados argentinos, as falas de Milei “constituem flagrante interferência nos assuntos internos de outro Estado” e violam “princípios fundamentais do direito internacional, como a não intervenção e a autodeterminação dos povos.” Segundo o UOL, as assessorias dos parlamentares argentinos confirmaram a ofensiva contra Milei. Já os gabinetes dos senadores democratas não responderam às tentativas de contato até a noite de segunda-feira.
De um lado, os presidentes dos Estados Unidos e da Argentina dedicam energia e prestígio político para interferir na campanha de Flávio Bolsonaro. De outro, os próprios legislativos desses países tentam conter o estrago. Trump espalha teorias conspiratórias. Milei ofende autoridades brasileiras em solo nacional. E parlamentares de ambos os países precisam sair em defesa de princípios que deveriam ser elementares para qualquer governo: não meter as mãos na democracia alheia.


