O Consulado dos Estados Unidos em São Paulo está promovendo encontros com influenciadores digitais ligados à ultradireita para debater “liberdade de expressão e ambiente digital”. A informação é do jornalista Leandro Demori. O Palácio do Planalto interpreta a iniciativa como mais um movimento da direita internacional em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência.
Entre os convidados está Maria Fernanda Schmidt, apresentadora do canal Brasil Paralelo. Em publicação no Instagram no dia 23 de julho, ela descreveu a participação no encontro como “uma excelente oportunidade para compartilhar com os diplomatas os desafios enfrentados por influenciadores” no ambiente digital. A foto do registro mostra ao menos três outros nomes do ecossistema bolsonarista: Leandro Narloch, Rafael Ferri e Penélope Nova. Todos produzem conteúdo crítico ao governo Lula e atuam na defesa da candidatura de Flávio Bolsonaro nas redes sociais.
O jornalista Leandro Demori afirmou no YouTube que outros influenciadores identificados com a ultradireita também receberam convites para novas rodadas de conversa na representação diplomática norte-americana. Os encontros são sempre em grupos restritos, o que dá ao formato um ar de clube seleto onde se discute a democracia brasileira com diplomatas de um governo estrangeiro.
A iniciativa acontece no meio de um cenário diplomático bastante tenso entre Brasília e Washington. O governo de Donald Trump vem adotando uma série de medidas que o Itamaraty e integrantes do Palácio do Planalto classificam, nos bastidores, como tentativas de influenciar o debate eleitoral brasileiro.
Nesta quarta-feira (29), o governo Trump elevou o tom novamente. Em documento que comunica a “continuação da emergência nacional com respeito ao Brasil”, reproduziu a narrativa de perseguição ao clã Bolsonaro. O texto prorroga por mais um ano as sanções impostas ao país com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, conhecida pela sigla IEEPA. É a mesma história que os Bolsonaro espalham nas redes sociais, agora chancelada em documento oficial americano.
O raciocínio do Planalto é direto. Se diplomatas americanos estão sentando com influenciadores que fazem oposição sistemática a Lula e defendem a candidatura de Flávio Bolsonaro, a linha entre “diálogo sobre liberdade de expressão” e interferência eleitoral fica bastante tênue. O argumento de que se trata de um debate amplo sobre democracia soa no mínimo desproporcional quando apenas um lado do espectro político é convidado para a conversa.
O que estava disperso vai se juntando. De um lado, o consulado americano reúne influenciadores anti-Lula em São Paulo. Do outro, representantes do governo Trump tentam entrar no Brasil para falar sobre “fraude nas urnas” e têm o visto negado. Em paralelo, Washington prorroga sanções contra o país usando a mesma narrativa da família Bolsonaro.


