O Pentágono decidiu que o mar não foi suficiente. Agora os Estados Unidos querem caçar narcotraficantes em terra firme na América Latina, com a ajuda de governos aliados da região. A declaração veio do próprio secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, durante uma visita ao Panamá para exercícios militares que reúnem cerca de 20 países.
Desde setembro do ano passado, o governo de Donald Trump já bombardeia supostas embarcações de narcotráfico no Caribe e no Oceano Pacífico oriental. Agora a ideia é levar essa mesma lógica para o continente. “O mesmo efeito em terra”, disse Hegseth, vestindo uma camiseta verde-oliva e cercado por militares, em um local não identificado da selva panamenha. Avestimenta não foi uma escolha casual. A mensagem visual era tão importante quanto a verbal.
A Coalizão Anticartéis das Américas, liderada por Washington, reúne 19 países. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Honduras e Peru compõem o bloco, todos com governos de direita.
Hegseth foi explícito ao comparar os cartéis a grupos terroristas. “Assim como o Isis ou a Al Qaeda”, disse, referindo-se ao Estado Islâmico e à Al Qaeda. Classificou os remanescentes das guerrilhas colombianas como “alvos legítimos”. A ameaça cobre tudo, “do tráfico de cocaína até o fentanil nas praças do México”. Quando um secretário de Defesa equipara narcotraficantes a organizações terroristas islâmicas, não está apenas mudando o vocabulário. Está abrindo a porta para um tipo de operação militar que até agora os Estados Unidos reservavam para o Oriente Médio.
A parte mais inquietante veio quando Hegseth falou sobre processo judicial. “Não vamos submetê-los a um processo judicial, onde sabemos que serão liberados. Vamos destruir estas redes com todas as capacidades do governo americano.” Em tradução direta: sem tribunal, sem defesa, sem o incômodo do devido processo legal. Juristas e organizações de direitos humanos já alertam que os ataques às narcolanchas podem configurar execuções extrajudiciais. A versão terrestre promete ser ainda mais controversa.
O que está em jogo aqui vai além do combate às drogas. Os Estados Unidos estão construindo uma arquitetura militar regional com países alinhados politicamente, excluindo nações que não compartilham a mesma ideologia. Quando a escolha de parceiros na “guerra ao narcotráfico” segue um critério ideológico e não geográfico ou operacional, fica evidente que a segurança pública é apenas uma camada de um projeto geopolítico bem mais amplo. E quando um governo decide que pode eliminar adversários sem processo judicial, usando a linguagem da “guerra ao terror” em solo latino-americano, o que está em jogo não é apenas a sorte dos traficantes. É o precedente que se cria para o uso de força militar contra qualquer grupo que Washington decida rotular como ameaça. Em qualquer país.


