A Polícia Federal afirmou que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro teria orientado como os recursos para o filme “Dark Horse”, biografia do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, seriam geridos nos Estados Unidos. Segundo a PF, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi o responsável pelo “financiamento ilícito” da produção cinematográfica. A informação é do blog do jornalista Fausto Macedo, no Estadão.
A polícia pediu abertura de inquérito em julho deste ano para apurar o financiamento do filme. O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pela oposição, e o irmão Eduardo são investigados são investigados. A PF quer saber quem são os beneficiários finais do dinheiro e qual foi o papel de cada um nas negociações com Vorcaro.
O relatório policial aponta para uma rede de interlocutores que conecta o dinheiro ao destino final. A investigação também mira o publicitário Thiago Miranda, que servia de ponte entre Vorcaro para assuntos de mídia. Trocas de mensagens entre Miranda e o banqueiro mostram, segundo a PF, a atuação direta de Eduardo Bolsonaro orientando a utilização dos recursos enviados pelo ex-dono do Banco Master.
No dia 21 de março de 2025, Miranda encaminhou a Vorcaro um print de uma conversa atribuída a Eduardo Bolsonaro. Na mensagem, eram apresentadas “orientações sobre a forma pela qual os recursos poderiam ser geridos”, com a indicação de Altieres Santana como gestor disponível. Santana era justamente um dos gestores do fundo Havengate, sediado no Texas e controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Ou seja, o irmão do senador não apenas acompanhava a operação como apontava quem deveria tocar o dinheiro do outro lado do oceano.
A dimensão financeira do esquema é generosa. Após negociação com Flávio Bolsonaro, Vorcaro pretendia investir US$ 24 milhões na produção do filme, cerca de R$ 134 milhões na época. A atuação pessoal do senador com o banqueiro foi revelada pelo site The Intercept. Entre fevereiro e setembro de 2025, foram efetivamente remessados US$ 12.333.335 para o Havengate. O dinheiro saía da empresa Entre Investimentos e Participações Ltda, de propriedade de Antônio Carlos Freixo Júnior, o mesmo doleiro cuja delação premiada foi homologada dois dias atrás pelo ministro André Mendonça do STF.
A peça aqui se encaixa com uma precisão desconfortável para a família Bolsonaro. Freixo Júnior delatou que repassou cerca de R$ 61 milhões ao fundo Havengate a pedido de Flávio Bolsonaro e por determinação de Vorcaro. Agora a PF mostra que Eduardo Bolsonaro, do outro lado da operação, orientava como esse mesmo dinheiro deveria ser gerido no Texas. O banqueiro mandava, o doleiro transferia, o senador pedia e o ex-deputado dizia como gastar. Cada irmão tocava uma ponta do mesmo cabo.
A escolha de Altieres Santana como gestor não é um detalhe menor. Santana era gestor de um fundo controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo. A cadeia de confiança é toda interna ao círculo dos Bolsonaro. Nada passava por intermediários independentes. O dinheiro era administrado por gente escolhida a dedo pelo próprio clã. Quando a PF diz que quer saber os “beneficiários finais”, está perguntando exatamente onde esse dinheiro parou depois de passar pelo funil montado entre o Brasil e o Texas.


