
Novas mensagens extraídas do celular do ex-dono do Banco Master revelam uma rede de proximidade do empresário com o entorno de outros três ministros da corte: Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e André Mendonça. A informação é do UOL, reportagem das colunistas Thais Bilenky e Daniela Lima, publicada nesta terça-feira.
Os diálogos obtidos pelo UOL e enviados aos gabinetes do tribunal mostram citações a repasses mensais e pagamento de viagens e serviços ao entorno de Nunes Marques, articulações comerciais e encontros com o filho de Luiz Fux, além da atuação de um advogado aliado de Mendonça intermediando reuniões e celebrando decisões judiciais favoráveis a terceiros.
Um dos trechos mais delicados envolve o advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques. Em conversas com Vorcaro, Luiz Rennó, então diretor jurídico do banco, menciona pagamentos de R$ 500 mil por mês a Kevin. Em outubro de 2024, Rennó chegou a enviar uma planilha com o nome e o telefone de Kevin e a legenda “Dominado aqui”. Em 2025, perguntou se o valor seria mantido. Segundo o Coaf, a Consult Inteligência Tributária, de Teresina, teria recebido R$ 6,6 milhões do Master em um ano. Kevin nega ter prestado serviços ao banco ou recebido dinheiro de Vorcaro, e diz ter recebido R$ 281,6 mil da Consult por serviços tributários sem relação com o STF. O ministro Nunes Marques não vai se pronunciar.
Nas conversas entre Vorcaro e Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, que vão de maio de 2024 a agosto de 2025, o banqueiro pede “ajuda num caso” não identificado, os dois combinam encontros em várias cidades, e Vorcaro oferece convites para camarote no Carnaval do Rio. Em março de 2025, Rodrigo orientou Vorcaro a enviar um email à secretária do pai no STF. A assessoria de Rodrigo diz que a aproximação comercial nunca se concretizou e que ele não recebeu valores.
Há ainda um episódio que beira o grotesco. No dia 5 de dezembro de 2024, um contato salvo como Leo Serrano pergunta a Vorcaro se uma mensagem de pedido de viagem veio dele. O remetente é identificado como “Ministro Kassio”, pedindo ajuda para formatar uma viagem de dez dias, entre 8 e 18 de janeiro, para cinco pessoas, com guias e motoristas de vans falando português ou espanhol, inicialmente em Viena com bate-volta para Bratislava, Budapeste, Graz ou Salzburgo. Serrano pergunta se atende o pedido independentemente ou faz e fatura para Vorcaro. O banqueiro responde: “Sim. Atende. Tudo.” Serrano ainda pergunta se “ele paga ou eu jogo procê essa bomba”, e Vorcaro pede para falar por telefone. Dias depois, Serrano informa que o “Kassio” que pediu a viagem sumiu. Em outra troca, uma mulher chamada Rayanna informa a Vorcaro que uma amiga “ficou com Kassio” e cobra um pagamento de “10”, possivelmente via Pix.
O detalhe mais corrosivo para a credibilidade do tribunal é a figura de Ciro Soares, advogado que fez campanha pela indicação de Mendonça ao STF e levou Vorcaro pessoalmente ao escritório do ministro em 2025. Numa mensagem de 10 de outubro de 2024, Soares celebrou com o banqueiro um habeas corpus concedido por Mendonça ao então governador do Rio, Claudio Castro, trancando investigações no STJ. “Deu certo. Eu lhe disse. Ganhamos”, escreveu. Tratar uma decisão de um ministro do STF como conquista conjunta de um advogado que também serve de interlocutor de um banqueiro investigado é o tipo de frase que acaba com qualquer ficção de distância entre gabinete e interessados privados.
A cronologia dos encontros também não ajuda. Cezinha de Madureira, deputado do PL e da bancada evangélica que também fez campanha para Mendonça, agendou a reunião de Vorcaro com o ministro em março de 2025, fora da agenda oficial. Em maio do mesmo ano, Ciro Soares convidou e depois desconvidou Vorcaro de um evento do Iter, instituto fundado por Mendonça, alegando que o próprio Cezinha achou melhor que ele não fosse. O gabinete de Mendonça confirmou o encontro e disse que o ministro recebeu o empresário uma única vez, por iniciativa dele, e que se limitou a ouvi-lo.
Os registros são fragmentados e não comprovam repasses diretos aos filhos dos magistrados, nem interferência em julgamentos. As menções a valores de Kevin Marques aparecem em conversa entre terceiros, não na voz do próprio. A defesa de cada um citado nega tudo, como sempre. Mas o padrão que se desenha não depende de condenação para ser inquietante. O banqueiro que financia filmes de Bolsonaro, operado por doleiro, mantinha canais abertos com os círculos próximos dos ministros que agora julgam o caso.



