
Jamil Chade/ICL Notícias
O risco de Donald Trump não reconhecer uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva é real e existe uma “boa probabilidade” de que ele faça isso. Quem faz o alerta é Steve Levitsky, autor do best-seller “Como morrem as democracias” e uma das maiores autoridades no estudo do movimento autoritário recente no mundo.
Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, o professor da Universidade de Harvard apontou que eleger o movimento bolsonarista seria “muito arriscado” para a democracia brasileira.
Lula está nos EUA e irá se reunir nesta segunda-feira com o senador democrata Bernie Sanders. Ele ainda irá abrir a Assembleia Geral da ONU na terça-feira com uma defesa do sistema eleitoral brasileiro e irá denunciar a ingerência externa.
Para Levitsky, porém, o governo Trump deve intensificar essa ingerência no país nas próximas semanas e recomenda que atores político brasileiros chancelem o resultado do processo eleitoral para evitar uma crise institucional.
Eis os principais trechos da conversa:
Chade: o que representa a eleição no Brasil para o debate mais amplo sobre os ataques sofridos pela democracia no mundo?
Levistky: Sempre sou hesitante em fazer uma avaliação do impacto de uma eleição isolada para a democracia no mundo. O Brasil é uma democracia bem robusta e um país complicado, desigual e difícil de ser governado. Estamos num momento em que, por muitas razões, a democracia está vulnerável a desafiantes do “anti-sistema” que, ao contrário de anos 30, 60 ou 70, não estão necessariamente se desfazendo das instituições eleitorais. Eles participam do processo eleitoral, mas são contra o sistema e colocam diferentes graus de ameaça à democracia.
Não acho que Javier Milei vai matar a democracia argentina. Já Bukele matou a democracia em El Salvador. Ou seja, não sabemos exatamente o que vai ocorrer. Trump, em seu primeiro mandato, não fez tanto dano para a democracia. Trump, agora, tem causado mais dano. Eleger esses outsiders não automaticamente mata a democracia. Mas é sempre um risco.
Os americanos estão aprendendo agora que precisa ser levado à sério quando personagens autoritários tentam minar a democracia. O fato de eles fracassam em matar a democracia não significa que não sejam uma ameaça.
Os brasileiros devem aprender do fato de que os bolsonaristas tentaram dar organizar um golpe de estado (em 8 de janeiro de 2023). Elege-los de novo seria muito arriscado.
Mas também estamos num momento em que os atuais governantes são muito impopulares. No mundo todo. Em todos os lugares, salvo no México, eles perdem a eleição. Vimos nos EUA em 2024. Os americanos não votaram por Trump por serem autoritários. Votaram por estarem muito insatisfeitos com o status quo, que Joe Biden e Kamala Harris representavam. E Lula tem de lidar com isso.



