Portal do Ricardo Mello

Comida de mentira, lucro de verdade: como a indústria está adoecendo o Brasil

Data: 28 de novembro de 2025

O prato do brasileiro está mudando, e não é para melhor. A quantidade de alimentos ultraprocessados na nossa dieta mais do que dobrou desde os anos 80, saltando de 10% para preocupantes 23%. O alarme foi soado por mais de 40 cientistas, liderados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em uma série de artigos que colocam o dedo na ferida da indústria alimentícia.

Mas essa mudança não é um acidente de percurso. É um projeto. Segundo Carlos Monteiro, pesquisador da USP e líder do trabalho, essa transformação global é impulsionada por gigantes corporativos que lucram rios de dinheiro vendendo produtos ultraprocessados. Eles contam com um exército de marqueteiros e lobistas que barram qualquer política pública que tente promover comida de verdade.

O fenômeno é mundial. O estudo mostra que em 93 países o consumo desses produtos só aumentou. Nos Estados Unidos, mais de 60% do que se come já se encaixa nessa categoria. É um padrão que se espalha como vírus: começa com as classes mais ricas e, com o tempo, invade a mesa de todos.

Para entender o problema, os próprios pesquisadores brasileiros criaram um mapa para nos guiar. Eles dividiram os alimentos em quatro grupos. O primeiro tem a comida de verdade, como frutas, legumes e carnes. O segundo grupo traz os ingredientes que usamos para cozinhar, como óleo e sal. O terceiro tem os alimentos processados, como conservas e pães simples.

A encrenca está no quarto grupo, o dos ultraprocessados. São produtos que nem parecem comida. Eles misturam ingredientes baratos, como açúcar e gordura, com um monte de aditivos químicos. O objetivo é que eles fiquem super saborosos, durem para sempre na prateleira e estejam prontos para comer. Pense em biscoitos recheados, refrigerantes e macarrão instantâneo.

Paralelamente ao avanço desses produtos, cresceram também as taxas de obesidade e de doenças como diabetes, câncer e problemas no coração. A ciência já mostrou que dietas ricas nesses produtos estão ligadas ao consumo exagerado de calorias e a uma maior exposição a produtos químicos que não deveriam estar no nosso corpo.

Os pesquisadores são claros: não podemos mais esperar para agir. Eles propõem uma série de medidas para virar o jogo. Uma delas é obrigar as embalagens a alertarem sobre o excesso de gordura, sal e açúcar, assim como já acontece com os cigarros.

Outra ideia é proibir a venda desses produtos em escolas e hospitais. Nesse ponto, o Brasil até aparece como um bom exemplo, com um programa que vem aumentando a oferta de comida fresca nas escolas. Os cientistas também defendem a restrição da publicidade, especialmente a que mira as crianças, e a criação de impostos sobre os ultraprocessados para financiar comida de verdade para famílias de baixa renda.

A mensagem mais importante do estudo é que a culpa não é sua. A responsabilidade é das grandes corporações, que faturam 1,9 trilhão de dólares por ano com esse setor. São lucros gigantescos que alimentam o poder político dessas empresas, permitindo que elas continuem moldando o que o mundo come, muitas vezes para pior.

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