Necropolítica: pistolas liberadas por Bolsonaro dobraram nas mãos de criminosos, mostra estudo
Data: 9 de dezembro de 2025
Bruno de Freitas Moura – Repórter da Agência Brasil
O estudo “Arsenal do Crime”, divulgado nesta segunda-feira (8) pelo Instituto Sou da Paz, jogou luz sobre uma das heranças mais perigosas do governo Bolsonaro: a explosão de pistolas 9mm nas mãos de bandidos após a flexibilização das regras de armamento em 2019.
Os números falam por si. Entre 2018 e 2023, as apreensões de pistolas 9mm mais que dobraram nos quatro estados do Sudeste, saltando de 2.995 para 6.568 unidades. Um crescimento de 119% que transformou essa arma no segundo tipo mais apreendido no país, perdendo apenas para o tradicional revólver 38.
De exclusiva das forças de segurança para qualquer um
A mudança começou com o decreto de 2019 que facilitou o acesso a armas para Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores, os famosos CACs. Entre as novidades anunciadas por Bolsonaro, as pistolas 9mm deixaram de ser exclusivas das forças de segurança e os atiradores puderam comprar até 30 armas cada um. Bolsonaro havia prometido isso na campanha, vendendo a ideia como “liberdade de defesa”. O resultado: bandidos armados até os dentes pelo Estado.
Bruno Langeani, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, não usa meias palavras para definir o que aconteceu: foi um “afrouxamento” que permitiu a entrada massiva de armas mais potentes no mercado legal. O problema é que boa parte delas não ficou onde deveria.
O pesquisador explica que existem dois tipos de desvio: o de “boa-fé”, quando alguém compra a arma legalmente mas ela é roubada ou furtada, e o de “má-fé”, quando facções recrutam pessoas sem antecedentes criminais para comprar armas e depois desviá-las para o crime.
A diferença que mata
Não é só questão de quantidade. A migração do revólver para a pistola representa uma mudança qualitativa no poder de fogo dos criminosos. Enquanto um revólver tem cinco ou seis tiros e demora para recarregar, a pistola 9mm vem com carregadores de 12 ou mais munições e permite disparos rápidos e contínuos.
Para completar o pacote, o calibre 9mm expulsa o projétil com 40% mais energia e tem alcance maior que outras munições. Em outras palavras, os bandidos ganharam armas mais letais, com mais tiros e maior precisão. Uma combinação explosiva que as forças de segurança sentem na pele todos os dias.
Lula tenta consertar o estrago
Logo no primeiro mês de 2023, o governo Lula começou a apertar as regras novamente. Iniciou um recadastramento de armas e, em julho, determinou que as pistolas 9mm voltassem a ser exclusivas das forças de segurança. Também transferiu do Exército para a Polícia Federal a fiscalização dos registros de CACs, mudança que só entrou em vigor no segundo semestre deste ano.
Langeani defende que a Polícia Federal precisa ter um setor especializado para acompanhar essas compras e verificar se as armas continuam com seus proprietários originais. A ideia é evitar que mais armamento escape para o mercado negro.
O problema vai além das pistolas
O estudo também revela que armas de guerra estão cada vez mais presentes nas ruas. Entre 2018 e 2023, a apreensão de fuzis, metralhadoras e submetralhadoras cresceu 55,8% no Sudeste. O Rio de Janeiro lidera esse ranking sombrio, com 3.076 fuzis apreendidos, mais que o dobro dos outros três estados juntos.
Segundo o instituto, apenas seis estados têm delegacias especializadas no combate ao tráfico de armas. Uma estrutura insuficiente para enfrentar um problema que se espalhou pelo país inteiro depois da flexibilização de 2019.
Os dados mostram como políticas públicas aparentemente técnicas podem ter consequências dramáticas na segurança. O que foi vendido como ampliação de direitos acabou virando combustível para a violência urbana. Agora, o país tenta reverter um processo que colocou milhares de armas de alta letalidade em circulação, mas o estrago já estava feito.




