Portal do Ricardo Mello

Toffoli sai da relatoria do Banco Master e deixa rastro de desconforto no STF

O ministro Dias Toffoli

Data: 12 de fevereiro de 2026

O ministro Dias Toffoli pediu para deixar a relatoria do Caso Master depois de uma grave crise institucional que colocou em xeque a credibilidade da Corte. Toffoli estava tocando a investigação sobre irregularidades no Banco Master desde dezembro. Ele que decidiu levar o caso para o Supremo. Ele que autorizou depoimentos, acareações, operações da Polícia Federal. Ele estava no comando total.

Mas aí chegou segunda-feira (9) e a PF entregou um relatório que trouxe menções sobre o próprio Toffoli, baseadas em dados do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. A informação vazou e a crise se instalou. O presidente do STF, Edson Fachin, comunicou os achados aos colegas. E pronto. Na reunião de quinta-feira, Toffoli pediu para sair da relatoria.

A nota oficial do tribunal diz que o ministro considerou “os altos interesses institucionais” e pediu a redistribuição. Traduzindo: quando você vira personagem da própria investigação que está conduzindo, fica complicado continuar fingindo que está tudo bem.

A questão que ninguém quer responder

Aqui está o ponto que merecia mais atenção. Toffoli é sócio da empresa Maridt, que tem relação com o Banco Master. Ele admitiu isso na nota que divulgou nesta quinta. Disse que integra o quadro societário, mas que a administração é feita por parentes. E que isso é permitido pela Lei Orgânica da Magistratura, que só proíbe magistrados de exercerem atos de gestão.

Tecnicamente, segundo a lei, ele pode ser sócio. Mas aqui vem a ironia: ele estava julgando um caso que envolvia a instituição onde ele tinha interesse financeiro. Não é suspeição formal? Talvez não, segundo a lei. Mas é no mínimo uma situação que deveria ter sido declarada desde o início, não é verdade?

Toffoli também negou relação pessoal ou financeira com Daniel Vorcaro. Mas se a PF encontrou conversas entre os dois no celular do banqueiro. Issso significa que havia algum tipo de contato ou comunicação. Ninguém aparece no celular de alguém por acaso.

O apoio que parece suspeita

A nota do STF é curiosa. Os ministros afirmaram “não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição”. Reconhecem “a plena validade dos atos praticados” por Toffoli. E expressam “apoio pessoal” a ele, respeitando “a dignidade de Sua Excelência”.

Leia bem: eles estão dizendo que Toffoli não é suspeito e que tudo que ele fez enquanto conduzia a investigação é válido. Mas se tudo era válido, por que ele saiu? Se não havia suspeição, por que pedir redistribuição? O tribunal está tentando ter as duas coisas ao mesmo tempo: proteger Toffoli e manter a aparência de que a investigação continua legítima, até para evitar nulidades processuais futuramente.,,,

O contexto que importa

Toffoli autorizou operações da PF em janeiro que incluíram buscas em endereços ligados a Daniel Vorcaro e familiares. Ele prorrogou investigações. Ele determinou depoimentos. Enquanto isso, ele era sócio de uma empresa com relação ao banco que estava sendo investigado.

Fachin, em nota de 22 de janeiro, defendeu a atuação das instituições mas afirmou que “eventuais vícios ou irregularidades” seriam examinados. Dias depois, Toffoli sinalizou a possibilidade de enviar o caso para a primeira instância, mas só depois que a PF terminasse. Agora a PF terminou, encontrou menções sobre Toffoli, e ele sai.

O que fica no ar

A questão não é se Toffoli cometeu crime. A questão é se ele deveria ter estado conduzindo essa investigação desde o início. Se você é sócio de uma empresa ligada ao banco investigado, você deveria estar julgando o caso? A resposta óbvia é não.

O tribunal inteiro sabe disso. Por isso a nota de apoio. Por isso o pedido de redistribuição. Por isso o silêncio constrangido. Ninguém quer dizer em voz alta que houve um problema de conflito de interesses, mas todos sabem que havia.

A investigação continua. Agora com outro relator. Os atos de Toffoli foram declarados válidos. Mas a confiança em como tudo foi conduzido ficou abalada. E quando a confiança cai, o que sobra é desconforto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

oito + 5 =

Notícias relacionadas