Bolsa Família não tira mulher do trabalho, e o FMI vem comprovar o óbvio
Data: 19 de fevereiro de 2026
Sabe aquele argumento que você ouve em bar, em reunião de família, em qualquer lugar onde tem gente que não quer pensar muito? O de que Bolsa Família tira mulher do trabalho, que fica acomodada em casa porque ganha dinheiro fácil do governo? Pois bem, o Fundo Monetário Internacional (FMI) resolveu gastar tempo e dinheiro para comprovar que isso é conversa fiada. E olha que o FMI não é exatamente conhecido por defender programas sociais brasileiros.
O estudo publicado em 11 de fevereiro traz dados que deveriam ser óbvios para qualquer um que tenha dois neurônios funcionando. Das 18,84 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família em fevereiro, mais de 15,9 milhões (84,38%) são chefiadas por mulheres. Ou seja, são elas que recebem o dinheiro, são elas que decidem como gastar, são elas que carregam a responsabilidade de manter a família de pé. E mesmo assim, continuam trabalhando. Porque precisam. Porque querem.
O FMI usou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-Contínua) do IBGE para chegar a essa conclusão. A presença das mulheres na força de trabalho é decisiva para o desenvolvimento do país, mostra a pesquisa. Não é poesia, é economia pura. Se você reduzir pela metade a diferença entre as taxas de participação de homens e mulheres no mercado de trabalho, de 20 para 10 pontos percentuais até 2033, o Brasil cresce 0,5 ponto percentual ao ano nesse período. Isso é crescimento real, dinheiro que entra no bolso de todo mundo.
Trabalho não-remunerado
Mas aí vem o detalhe que ninguém quer ouvir falar. As mulheres dedicam em média 9,8 horas a mais por semana ao trabalho de cuidado não remunerado do que os homens. Mulheres negras? Chegam a 22,4 horas semanais. É como se tivessem dois empregos, um que paga e outro que ninguém reconhece. Isso é o que chamam de economia do cuidado, e ela é invisível na maioria das contas que o país faz.
Um estudo lançado em 2025, fruto de parceria entre o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), intitulado “Políticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho”, traz números que deveriam fazer qualquer um ficar indignado. Cinquenta por cento das mulheres deixam o mercado de trabalho até dois anos após o nascimento do primeiro filho. Os homens? Aumentam seus rendimentos nesse mesmo período. Não é coincidência, é sistema. É estrutura. É a forma como a sociedade foi montada para que mulher cuide e homem ganhe dinheiro.
Desigualdade salarial entre homens e mulheres
O problema não é o Bolsa Família. O problema é que mulher ganha 22% menos que homem fazendo o mesmo trabalho, conforme apontou o próprio FMI nesta semana. Quando você ganha menos, quando você sabe que vai ter que sair do trabalho para cuidar do filho porque creche é luxo que não todo mundo tem, você começa a fazer contas. E às vezes a conta fecha para ficar em casa. Não porque o Bolsa Família incentiva, mas porque o mercado de trabalho não oferece alternativa.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) conduziu outro levantamento em 2025, denominado “O efeito do aumento no valor das transferências de renda sobre a inserção dos beneficiários no mercado de trabalho”. O resultado? O aumento do valor mínimo do Bolsa Família, instituído desde 2023, não gerou um incentivo para que os trabalhadores migrassem de empregos formais para informais. Ou seja, mais dinheiro não fez ninguém largar o trabalho. Pelo contrário, as pessoas continuaram trabalhando porque precisam trabalhar.
Conforme declarado por 34,4% do grupo participante no estudo do Ipea, o principal fator para abandonar a força de trabalho foi a necessidade de cuidar dos afazeres domésticos, do filho ou de outro parente. Não é preguiça. Não é acomodação. É responsabilidade. É aquilo que a sociedade coloca nas costas de mulher e depois reclama quando ela não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo.
O FMI apontou caminhos possíveis para o Brasil enfrentar essa crise global dos cuidados. Ampliação do acesso a creches e serviços de assistência a idosos. Ajustes na política de licença parental que façam homem também cuidar. Implementação eficaz da Lei da Igualdade Salarial. Essas medidas, em conjunto, poderiam promover um ambiente mais favorável para que as mulheres ingressem no mercado de trabalho e reforcem o potencial econômico do Brasil.
Mas enquanto isso não acontece, enquanto creche continua sendo privilégio, enquanto mulher ganha menos e ainda tem que cuidar de tudo, o Bolsa Família segue fazendo o que faz: transferindo renda para quem precisa. E as mulheres que recebem continuam trabalhando, porque não têm escolha. Porque são mulheres de verdade, não personagens de discurso político.




