Auditor suspeito de acessar dados de ministros do STF é ligado a integrante da ‘Abin paralela’
Data: 20 de fevereiro de 2026
A história que vamos contar hoje, revelada pela jornalista Heloisa Villela, do ICL Notícias, parece saída de um roteiro de filme, mas é a mais pura realidade da política brasileira. Um auditor da Receita Federal, Ricardo Manzano de Moraes, está com o passaporte apreendido e usa tornozeleira eletrônica. O motivo? Ele é suspeito de ter acessado informações sigilosas de ministros do Supremo Tribunal Federal. E a justificativa para essa invasão de privacidade é, no mínimo, curiosa: Manzano alegou que procurava o contato de um amigo chamado Feitosa, e pensou que ele fosse parente da nora do ministro Gilmar Mendes. Uma desculpa que, convenhamos, não convence nem a criança mais ingênua.
Essa história, porém, é apenas a ponta de um iceberg bem maior e mais sombrio. O tal amigo que Manzano procurava é Ricardo Pereira Feitosa, que já foi coordenador geral de Pesquisa e Investigação da Receita Federal. Feitosa, por sua vez, é acusado de usar seu cargo para vasculhar informações fiscais de quem não era exatamente amigo da família Bolsonaro. Entre as vítimas desse escrutínio seletivo estava o procurador José Eduardo Gussem, aquele que denunciou a rachadinha de Flávio Bolsonaro. Percebe como as peças começam a se encaixar?
Tudo isso está detalhado em um relatório da Polícia Federal entregue ao STF em junho do ano passado. Esse documento não é pouca coisa, ele trata da interferência do governo Bolsonaro na Receita Federal, um tema que já rendeu muita dor de cabeça e ainda vai render mais.
No mesmo relatório, aparece outro nome conhecido: Kleber Cabral, presidente da Unafisco, que inclusive foi intimado a depor à PF. Cabral, em uma declaração que ecoa o medo de muitos, disse que servidores da Receita têm mais receio de investigar ministros do STF do que do PCC. Uma frase que, embora chocante, revela a pressão e o ambiente de intimidação.
A reação às medidas cautelares do ministro Alexandre de Moraes contra quatro servidores, que sequer participavam de investigação alguma, mas fizeram várias consultas a dados pessoais de autoridades sem justificativa, mostra bem o clima.
E aqui chegamos ao ponto nevrálgico da questão. Feitosa e Kleber não são figuras isoladas. Eles aparecem no relatório da PF sobre a famigerada Abin paralela. Sim, aquela operação montada por Alexandre Ramagem, que hoje está condenado no processo do 8 de janeiro e, convenientemente, foragido em Miami. O objetivo dessa Abin paralela era um só: blindar Flávio Bolsonaro das investigações sobre a rachadinha. É uma teia de interesses políticos que se estende por diferentes órgãos e cargos, usando a máquina pública para fins privados.
A denúncia é clara e direta. Kleber Cabral, por exemplo, tentou pressionar Guilherme Bibiani a não aceitar o cargo de corregedor da Receita. Por que? Porque Bibiani não era do interesse dos envolvidos com a Abin paralela e, claro, com Flávio Bolsonaro.
A demissão de Feitosa, em outubro de 2023, assinada pelo ministro Fernando Haddad, veio com um motivo que resume bem a situação: usar o cargo “para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública”. É a confirmação de que a Receita Federal, um órgão que deveria zelar pela lisura fiscal, foi instrumentalizada para proteger interesses políticos e perseguir desafetos. A história de Manzano, com sua desculpa esfarrapada, é apenas mais um elo nessa corrente de abusos que o país precisa conhecer e, mais importante, punir.




