Tem uma comparação circulando por aí que virou viral nas redes sociais. Diz que Lula gastou R$ 1,4 bilhão em cartão corporativo enquanto Bolsonaro teria gasto apenas R$ 27 milhões. A diferença é tão absurda que parece óbvio que algo está errado. E está mesmo. Mas não da forma que a fake news quer fazer você acreditar.
O problema é que estão comparando dados completamente diferentes. A cifra de R$ 1,4 bilhão se refere aos gastos em cartão corporativo de todos os órgãos da administração federal no governo Lula entre 2023 e 2025. Todos os órgãos. Defesa, Saúde, Educação, Infraestrutura, tudo junto. Já os R$ 27 milhões relacionados a Bolsonaro? Referem-se apenas aos gastos da Presidência da República durante os quatro anos de sua gestão. Só a Presidência. Nada mais.
Onde foi parar a maior parte do dinheiro
Agora vem o detalhe que transforma essa história completamente. A maior parte daquele R$ 1,4 bilhão não foi para compras suspeitas ou gastos duvidosos. Foi para a Defesa Civil. Especificamente, R$ 1,1 bilhão dos R$ 1,4 bilhão foram destinados ao Cartão de Pagamento da Defesa Civil (CPDC), utilizado para “despesas com ações de resposta a emergências e calamidades públicas”.
Ou seja, 78% daquele montante foi gasto em resposta a enchentes, deslizamentos, secas, tempestades e outras emergências que o Brasil enfrentou entre 2023 e 2025. Não foi para comprar caneta de ouro na Presidência. Foi para salvar vidas.
O Brasil teve enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul em 2024. Teve tempestades em várias regiões. Tudo isso custa dinheiro. Muito dinheiro. E esse dinheiro precisa ser gasto rápido, porque pessoas estão sofrendo. O cartão corporativo existe justamente para isso, para permitir que o governo responda rapidamente a emergências sem ficar preso em processos burocráticos lentos.
A comparação que ninguém quer fazer
Se você quer fazer uma comparação honesta, precisa comparar maçã com maçã. O governo Bolsonaro também tinha Defesa Civil. Também enfrentava emergências. E sabe quanto gastou em cartão corporativo em quatro anos? R$ 1 bilhão. Nos três primeiros anos, R$ 610,7 milhões.
Ou seja, Bolsonaro gastou R$ 1 bilhão em quatro anos com cartão corporativo em toda a administração federal. Lula gastou R$ 1,4 bilhão em três anos. A diferença existe, mas é bem menor do que a fake news quer fazer parecer. E quando você desconta os gastos com Defesa Civil, que são gastos legítimos em resposta a emergências, a história fica ainda mais clara.
Quando você coloca na mesma régua apenas a Presidência da República nos dois governos, os números mudam completamente. Entre 2023 e 2025, a gestão Lula gastou R$ 45 milhões com cartão corporativo na Presidência. Bolsonaro gastou R$ 27 milhões em quatro anos. Ou seja, Lula gastou 66% a mais em três anos do que Bolsonaro em quatro anos. Ainda é mais, mas a diferença não é aquela abismo que a fake news quer fazer parecer.
Como a desinformação funciona
A fake news funciona assim: pega um número grande e verdadeiro (R$ 1,4 bilhão), coloca ao lado de um número pequeno e verdadeiro (R$ 27 milhões), mas que se refere a coisas completamente diferentes. Depois deixa que a indignação faça o resto do trabalho. As pessoas veem aquela diferença absurda e compartilham sem verificar. Porque é mais fácil acreditar em um escândalo do que em uma explicação chata sobre modalidades diferentes de cartão corporativo.
Segundo o Portal da Transparência, existem três modalidades de cartão corporativo: o CPGF para pequenas despesas, o CPCC para passagens aéreas e o CPDC para emergências. A fake news pega o total das três modalidades de um governo e compara com apenas uma modalidade de outro governo. É desonesto. É manipulador. E funciona porque a maioria das pessoas não tem tempo de verificar.
A revista Veja divulgou o número de R$ 1,4 bilhão na última sexta-feira, dia 20. O dado é real. Mas o contexto que está sendo omitido é que 78% desse valor foi gasto em resposta a emergências e calamidades públicas. Não é escândalo. É governo funcionando.
A desinformação não precisa ser totalmente falsa para ser eficaz. Precisa apenas ser incompleta. Precisa apenas omitir contexto. Precisa apenas comparar coisas diferentes como se fossem iguais. E aí a indignação faz o resto.


