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Deputado diz que pobre não merece folga porque vai usar para drogas e jogos de azar

Dep. Marcos Pereira

Data: 26 de fevereiro de 2026

Tem coisa que você lê e fica com aquele incômodo na boca do estômago. Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, o partido da Igreja Universal, bolsonarista de carteirinha, disse, em entrevista à Folha de São Paulo, que é contrário ao fim da escala 6X1 porque “ócio demais faz mal”. Sim, o deputado que tem duas férias por ano, diz que folgar dois dias por semana é “ócio demais”.

Segundo ele, se as pessoas “tivessem condições de fazer lazer”, aí sim a demanda por fim da escala 6×1 seria válida. Mas como “o povo não tem dinheiro, infelizmente”, melhor deixar tudo como está. Porque sabe o que acontece quando pobre tem tempo livre? Vai ficar “mais exposto a drogas, a jogos de azar”. Pode ser “o mal” em vez de lazer. E aí vem a pergunta retórica que resume tudo: “Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”.

Pois é. Segundo o presidente do Republicanos, a solução para evitar que pobres caiam em drogas e jogos de azar é mantê-los trabalhando seis dias por semana. Porque nada diz “proteção social” como exaustão contínua, certo?

O deputado que trabalhou sete dias em dois meses

Aqui vem o detalhe que transforma essa declaração em desonestidade absoluta. Nos primeiros 57 dias de 2026, o trabalhador na escala 6×1 teve direito a exatamente oito dias de folga. Marcos Pereira, em esses mesmos 57 dias, trabalhou apenas sete dias. Sete. Enquanto defendia que o povo precisa trabalhar mais para não se perder em vícios, ele próprio estava curtindo um calendário que qualquer trabalhador brasileiro consideraria ficção científica.

O salário mensal de Pereira é de R$ 46.336,19. Além disso, recebeu auxílio-moradia de R$ 4.253,00. Sabe qual a média salarial do trabalhador da escala 6X1? Entre R$ 1.621 e R$ 2.431. E ainda assim acha que o trabalhador que ganha uma fração do que ele recebe deveria ficar mais tempo na labuta para não virar um dependente químico.

A defesa da competitividade que só funciona para quem já está no topo

Pereira também argumentou que reduzir a jornada “vai encarecer mais ainda” e “tirar a competitividade do setor produtivo brasileiro”. Comparou com países europeus que já implementaram semanas menores de trabalho, mas descartou a comparação porque lá “têm pleno emprego e economia mais pujante”. Alemanha, Finlândia, Islândia, Noruega. Segundo ele, não dá para comparar.

Claro que não dá. Nesses países, quando alguém trabalha menos, ainda consegue viver com dignidade. Tem saúde pública de qualidade, educação garantida, seguridade social robusta. Aqui, quando você trabalha menos, você corre risco de não pagar aluguel. Mas isso não é culpa da jornada reduzida. É culpa de décadas de políticas que beneficiaram quem já tinha dinheiro enquanto esmagava quem não tinha.

Pereira defende que “quanto mais trabalho, mais prosperidade”. Só que essa prosperidade não é distribuída igualmente. Ela fica concentrada no topo. O trabalhador que trabalha seis dias por semana não fica mais próspero. Fica mais cansado. Fica mais doente. Fica com menos tempo para estar com a família, para estudar, para respirar.

Marcos Pereira, que trabalhou sete dias em dois meses, que tem auxílio-moradia, que é bispo licenciado de uma das maiores igrejas evangélicas do país, que tem segurança garantida e carreira política blindada, acha que o problema do trabalhador é ter tempo demais. Não é falta de dinheiro. Não é falta de políticas públicas. Não é desigualdade estrutural. É ócio. É preguiça. É risco de vício.

Essa é a lógica da elite política brasileira. Trabalhe mais para não se perder. Fique ocupado demais para pensar. Não tenha tempo para exigir direitos. E se reclamar, bem, você é preguiçoso. Você quer ficar drogado. Você não merece lazer porque não tem dinheiro para pagar por ele.

A hipocrisia não é apenas uma característica dessa fala. É a estrutura inteira dela. E enquanto Pereira trabalha sete dias em dois meses, o Brasil segue trabalhando seis dias por semana, cansado demais para questionar por que alguém que trabalha tão pouco acha que tem autoridade moral para dizer quanto os outros devem trabalhar.

3 comentários para “Deputado diz que pobre não merece folga porque vai usar para drogas e jogos de azar”

  1. Imagino que esse deputado com tanto tempo livre , pois só trabalha as terças e quarta feiras, deve se drogar muito. Quando falta cérebro em uma pessoa, essa fala muita besteira, é o caso desse , infelizmente, Deputado.
    🤦 Esse é o nível dos congressistas que um dia confiamos nosso voto.pqp.

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