Como a misoginia está matando e violentando mulheres e meninas no Brasil
Data: 8 de março de 2026
Quando Vitor Hugo Simonin, 18 anos, se apresentou na 12ª Delegacia de Polícia em Copacabana na quarta-feira passada, escolheu uma camiseta preta com os dizeres “Regret Nothing” em inglês. Sem arrependimento, em português. A frase não é apenas uma declaração de moda. É o mantra de Andrew Tate, influenciador americano-britânico acusado de estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores. A apuração é da repórter da Folha de São Paulo Bruna Fantti. Simonin é réu por estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos.
A escolha da roupa ganhou as redes sociais e revelou algo que vai além do deboche e do descaso com a vítima. Ela expõe como ideologias de misoginia (ódio contra mulheres) circulam livremente entre jovens, moldando comportamentos que terminam em delegacias e salas de tribunal.
Simonin é filho de José Carlos Costa Simonin, ex-subsecretário estadual de Direitos Humanos, Governança, Compliance e Gestão Administrativa, exonerado do cargo horas antes de seu filho se entregar. A adolescente vítima afirma que foi atraída pelo ex-namorado, um jovem de 17 anos, para o apartamento de Vitor Hugo em Copacabana, onde estavam outros três adultos. Segundo depoimentos, ela pediu para que interrompessem as agressões, mas eles riram, a agrediram e filmaram o crime.
Segundo divulgado na imprensa, o seu advogado, Ângelo Máximo, afirmou que Vitor nega participação no estupro, confirmando apenas que estava no apartamento. A defesa não se manifestou sobre a escolha da camiseta, mas disse que ele se entregou de ‘cabeça erguida’.
O padrão que ninguém quer ver
De 2021 a 2025, o Rio registrou um aumento de 93% no número de adolescentes apontados como autores de crimes sexuais. Em 2025, foram 832 jovens menores de 18 anos suspeitos de infrações análogas a abusos sexuais. A maioria das vítimas são meninas.
Segundo especialistas ouvidos pela Folha de S. Paulo, esse crescimento acompanha a expansão de discursos machistas nas redes sociais. O universo “redpill” oferece uma narrativa atraente para adolescentes que buscam pertencimento. Martin Magalhães, pesquisador do Geni (Grupo de Estudos de Gênero e Sexualidade) da UERJ, explica que essas comunidades online pregam dominação e colocam mulheres em posições inferiores.
“Passa a ideia de dominação, ‘que lugar que você quer ocupar?’. Os homens nunca querem ocupar um lugar dito como inferior, que é onde vão colocar as mulheres”, disse Magalhães.
Cérebro em desenvolvimento, conteúdo sem filtro
Há um fator biológico que torna adolescentes particularmente vulneráveis. Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, aponta que o cérebro humano não está totalmente formado até os 21 ou 22 anos. O córtex pré-frontal, responsável por avaliar consequências, raciocínio lógico e controle de impulsividade, é a última parte a amadurecer.
“Um adolescente exposto a determinada situação de forma repetitiva tem menos condição que um adulto de avaliar se a referida situação é ou não aceitável”, explicou Abdo.
Quando esse cérebro em desenvolvimento é exposto constantemente a pornografia que subjuga mulheres e a discursos de ódio nas redes sociais, o resultado é previsível. Pesquisadores também apontam o desmonte do debate sobre gênero e sexualidade nas escolas, impulsionado por grupos políticos conservadores, deixando adolescentes sem ferramentas críticas para lidar com essas questões.
O que fazer com quem comete o crime
Quando crimes de repercussão envolvem menores, a sociedade pede redução da maioridade penal. O advogado penal Guilherme Carnelós oferece uma perspectiva diferente. Prender jovens de 19 anos frequentemente os coloca a serviço do crime organizado. “O que nós precisamos é construir um adulto melhor, e não uma ficha criminal”, afirmou.
Carnelós aponta que a internet facilita a vida dos pais porque teoricamente a criança não está “dando trabalho”, mas gera consequências gravíssimas. A solução passa por política pública eficiente e por uma legislação digital robusta. O ECA Digital, que entra em vigor no dia 17 de março, é um passo nessa direção, criado para proteger crianças e adolescentes na internet.
A camiseta de Vitor Hugo Simonin não é apenas uma escolha de roupa. É um sintoma de um problema estrutural que envolve educação, tecnologia e omissão. Enquanto esses fatores não forem enfrentados simultaneamente, mais adolescentes chegarão às delegacias com a mesma convicção de quem não tem nada a se arrepender.




