BOLSOMASTER: Flávio Bolsonaro e Valdemar da Costa Neto disseram que Ciro Nogueira seria o vice ideal
Data: 7 de maio de 2026
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou em entrevista recente que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) seria seu vice ideal na chapa presidencial. A afirmação ganhou contornos ainda mais constrangedores quando, a Polícia Federal cumpriu mandados contra Nogueira na 5ª fase da Operação Compliance Zero. A investigação acusa o senador piauiense de atuar como intermediário dos interesses privados de Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, recebendo mesadas que chegavam a R$ 500 mil mensais.
O cenário é ainda mais revelador quando se mapeia a timeline das negociações. Desde janeiro deste ano, Ciro Nogueira demonstrava proximidade com a pré-candidatura de Flávio. Na ocasião, o senador do Progressistas afirmou ser “simpático” à chapa, embora aguardasse avaliações para entender se seu nome “era competitivo”.
Em fevereiro, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, foi mais direto. Valdemar declarou que Nogueira “seria um excelente vice” para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em entrevista ao SBT. Flávio, por sua vez, mencionou que desejava formar a “chapa dos sonhos” com o presidente do Progressistas como vice, caracterizando-o como “amigo e conselheiro político”.
As negociações aconteciam de forma mais complexa na superfície. Ciro Nogueira, em manifestações públicas, afirmava que uma aliança entre PL e a federação entre União Brasil e Progressistas poderia ocorrer se Flávio inclinasse seus posicionamentos “mais ao centro”. O próprio Nogueira, questionado sobre a possibilidade de ser vice, dizia que a chance seria “zero” e chegou a indicar outros nomes para a posição. Quando perguntado novamente, respondeu que essa seria uma questão “para junho”.
O que muda radicalmente é o momento. Nesta quinta-feira, a Polícia Federal deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero contra Ciro Nogueira. O mandado de busca e apreensão na residência do senador do centrão foi autorizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que justificou a ação listando provas de que o parlamentar seria o “destinatário central” de favores financeiros pagos por Vorcaro.
Flávio ressaltou o que chamou de credenciais de Ciro, mencionando sua lealdade a Jair Bolsonaro durante o ministério anterior. “É nordestino, é de um partido bem forte, tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério dele”, explicou o senador carioca. A escolha, segundo Flávio, também consideraria a composição partidária futura e o perfil político buscado para a chapa. “Essa é uma decisão que se toma muito mais na frente”, completou.
O problema é que a trajetória de Ciro Nogueira, conforme apontado pela PF, não é exatamente a de um homem público dedicado ao interesse coletivo. Segundo a investigação federal, o senador funcionava como um “líder político” de Vorcaro, operacionalizando os interesses privados do banqueiro através de emendas legislativas que beneficiavam diretamente o Banco Master. A Federal descobriu que Nogueira não apenas recebia pagamentos mensais do banqueiro, mas também beneficiava-se de compras facilitadas, pagamento de despesas pessoais e uso de bens de alto valor. O mecanismo era sofisticado: Vorcaro escrevia as leis, Nogueira as apresentava como sendo suas, e ambos colhiam os frutos.
Flávio Bolsonaro menciona que Ciro possui “todas as credenciais” para ser vice. Irônico que uma das principais credenciais pareça ser justamente a capacidade de transformar o exercício do mandato parlamentar em atividade rentável para terceiros. A escolha revela uma estratégia clara: manter no núcleo duro da campanha presidencial um político que, mesmo sob investigação, carrega o prestígio de ter servido ao governo anterior. A lealdade a Bolsonaro, destacada repetidamente por Flávio, aparentemente vale mais que a existência de suspeitas fundadas de corrupção.
O timing não ajuda. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, havia sinalizado em fevereiro que Nogueira seria uma escolha excelente para vice, enquanto Flávio falava abertamente sobre a “chapa dos sonhos”. Agora, com a operação deflagrada, esses pronunciamentos ressurgiram nas redes sociais como evidência de um padrão preocupante: a aliança entre bolsonaristas e políticos acusados de desviar recursos públicos para ganho privado. Divulgar que alguém seria seu vice ideal poucas horas antes de a Polícia Federal deflagrar operação contra essa mesma pessoa sugere uma desconexão preocupante entre a campanha de Flávio e a realidade jurídica que envolve seus aliados. Ou indica que a lealdade política supera qualquer constrangimento legal, o que também não é particularmente tranquilizador para quem acredita em separação entre governo e direito.




