Violência contra mulher é vista como crime mais grave, mas sociedade nega formas psicológicas de abuso
Data: 1 de junho de 2026
A sociedade brasileira enxerga a violência contra mulheres como o problema mais sério do país, mas fecha os olhos para as formas mais sutis de abuso que precedem a agressão física. Essa contradição perigosa ficou evidenciada em uma pesquisa inédita do Datafolha divulgada nesta segunda-feira em parceria com o Movimento Mulher 360.
Seis em cada dez brasileiros (61%) classificam os ataques contra mulheres como o crime mais grave presente no país. Esse número supera significativamente a preocupação com tráfico de drogas (16%) e roubos à mão armada (10%). O cenário reforça que o combate à violência de gênero ganhou espaço central no debate sobre segurança pública.
Porém, quando o assunto muda para comportamentos controladores e coercitivos dentro de relacionamentos, a população relativiza. Quase metade (45%) não vê necessariamente como violência um homem impedir a parceira de sair de casa para uma comemoração. O percentual é semelhante entre aqueles que não reconhecem como abuso um companheiro monitorar as amizades da mulher (41%).
A violência patrimonial, formalmente prevista na Lei Maria da Penha, também é minimizada. Para 42% dos brasileiros, controlar o salário da esposa não configura agressão.
“A população relativiza comportamentos que sustentam a violência de gênero. Raramente o crime começa com uma agressão física. Sem o reconhecimento disso, a prevenção chega tarde demais para a mulher violentada”
Margareth Goldenberg, diretora-executiva do Movimento Mulher 360
A percepção muda drasticamente quando há constrangimento ou contato físico. Humilhar a companheira em público é visto como violência por 94% da população. Forçar relações sexuais com a esposa recebe condenação de 95%. Essa disparidade revela um padrão preocupante: a sociedade só reconhece violência quando ela é visível e deixa marcas.
Outro dado alarmante é a culpabilização da vítima. Sessenta e um por cento dos brasileiros concordam que muitas agressões resultam de escolhas erradas na seleção do parceiro. Esse pensamento é compartilhado por 57% das mulheres e 65% dos homens. Goldenberg alerta que essa mentalidade patriarcal contribui para o silêncio das vítimas e o fortalecimento do medo de denunciar.
A desconfiança nas instituições agrava ainda mais o cenário. Apenas 19% das mulheres confiam muito na polícia para protegê-las, enquanto 31% dos homens têm essa confiança. Sobre as leis de proteção, 55% dos homens as consideram adequadas, mas o mesmo percentual de mulheres demonstra insatisfação com a efetividade delas.
Entre as 1.037 mulheres entrevistadas em um módulo paralelo, 84% responderam que vivenciaram situações de violência de gênero. Em média, cada mulher passou por três episódios diferentes. Insultos e xingamentos são os mais comuns (59%), seguidos por ameaças de agressão física, empurrões ou chutes (45%). Ser seguida ou intimidada alcançou 43%.
Os números sobre violência sexual são particularmente preocupantes. Quatro em cada dez mulheres (38%) foram tocadas ou agarradas sem permissão. Uma em cada quatro já foi espancada ou sofreu tentativa de enforcamento. Vinte e dois por cento foram ameaçadas com armas ou facas.
Oitenta e nove por cento dos brasileiros acreditam que os casos de violência de gênero aumentaram no último ano. Entre as mulheres, esse índice sobe para 94%. A maioria (71%) também acredita que as mulheres correm mais perigo dentro de casa do que fora dela.
O Movimento Mulher 360 avalia que essa falta de reconhecimento das formas psicológicas e patrimoniais de abuso contribui para o silêncio das vítimas.
A pesquisa Datafolha ouviu 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais em capitais e regiões metropolitanas de todas as regiões do país entre 6 e 11 de abril. A margem de erro é de 2 pontos percentuais.




