Motta abre porta para escala 6×1 e Centrão vê risco nas urnas
Data: 9 de fevereiro de 2026
Hugo Motta encaminhou para a CCJ a PEC que reduz a jornada de trabalho no regime 6×1, aquela proposta que Erika Hilton do PSOL apresentou e que Lula já saiu defendendo publicamente. Depois que a comissão der o aval constitucional, vai ser criada uma comissão especial para discutir o tema com “equilíbrio e responsabilidade”, como Motta colocou nas redes sociais.
Traduzindo: o assunto saiu da gaveta e agora está na mesa de negociação. E isso muda tudo.
O que Motta não disse explicitamente, mas os bastidores já revelam, é que o Centrão está com medo. Segundo a colunista Thais Bilenky, lideranças do bloco avaliam que será difícil se posicionar contra o fim da escala 6×1 em um ano eleitoral. Ninguém quer virar o vilão que votou contra descanso dos trabalhadores quando chegar outubro. A conta não fecha politicamente.
Mas aqui vem a complicação. Enquanto o centrão se preocupa com votos, os empresários já estão na trincheira. Entidades patronais e grandes empresas se articulam para frear o avanço da proposta ou, na pior das hipóteses, moldá-la aos seus interesses. Uma liderança do setor foi bem claro: se o governo quer aprovar, os empresários querem contê-la ou reduzir seus impactos.
O ponto de disputa é bem específico. O governo defende a redução para 40 horas semanais, enquanto parte do centrão prefere manter o teto atual de 44 horas. O argumento é sempre o mesmo: o chamado “custo Brasil” não pode aumentar. Como se o descanso dos trabalhadores fosse um luxo que o país não pode se dar.
Lula já saiu em defesa da medida em entrevista ao UOL News na semana passada. Para ele, os avanços tecnológicos tornaram desnecessário manter a mesma carga horária de décadas atrás. Escalas como a 6×1 impactam mais duramente os jovens e trabalhadores da indústria, e está na hora de fazer uma mudança.
Erika Hilton propõe algo ainda mais ambicioso: 36 horas semanais com três dias de descanso. Ela afirma que o objetivo é ampliar o tempo de descanso sem redução de direitos. A deputada está alinhada com o entendimento do governo, que defende no mínimo dois dias semanais de descanso e uma jornada máxima de 40 horas. Para ela, a prioridade é garantir o avanço da pauta, independentemente de quem assina o projeto. O que importa é encerrar o que ela classifica como exploração excessiva do trabalho.
Motta também determinou o apensamento da proposta de Erika com outra semelhante do deputado Reginaldo Lopes do PT de Minas Gerais. Isso significa que as duas caminham juntas na tramitação. No Senado, a coisa já está mais avançada. Paulo Paim do PT do Rio Grande do Sul apresentou uma PEC que também prevê o fim da escala 6×1, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, totalizando 36 horas semanais. O texto está pronto para votação e conta com apoio de movimentos sociais ligados à pauta trabalhista, como o Movimento VAT.
Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, avalia que o debate está amadurecido na sociedade. Para ele, a resistência no Congresso deve se concentrar na extrema-direita, e parlamentares que se opuserem terão de responder ao eleitorado em outubro. Boulos também criticou os argumentos empresariais, afirmando que eles se repetem historicamente. Críticas semelhantes foram feitas à criação da CLT, do 13º salário e das férias remuneradas. Sempre a mesma música.
Uma alternativa em discussão é a diferenciação da jornada por setor econômico, com negociações específicas por categoria. A ideia encontra simpatia entre líderes empresariais, que defendem maior flexibilidade. Traduzindo novamente: alguns setores querem pagar menos por mais trabalho, enquanto outros aceitam a redução.
Para uma PEC ser aprovada na Câmara, são necessários ao menos 308 votos favoráveis em cada turno. Depois da CCJ, a proposta passa por uma comissão especial e depois vai ao plenário em dois turnos. O caminho é longo, mas agora está aberto. Motta deu o primeiro passo, o centrão está nervoso com as eleições, e os empresários já estão na luta. O que vai sair dessa negociação é o que importa agora.




