Prefeito tiktoker de Sorocaba é denunciado por desviar milhões da saúde pública
Data: 11 de fevereiro de 2026
Rodrigo Manga, aquele cara que ficou famoso postando vídeos nas redes sociais e ganhou o apelido de “prefeito tiktoker”, agora enfrenta uma denúncia pesada do Ministério Público Federal. E não é acusação leve não. Estamos falando de corrupção passiva, peculato, lavagem de dinheiro e integração em organização criminosa. Tudo isso envolvendo desvios de recursos na saúde de Sorocaba.
A denúncia do Ministério Público Federal (MPF) chegou no final de janeiro e aponta um esquema bem montado. Manga, sua mulher Sirlange e outras onze pessoas são suspeitos de ter criado uma máquina de desviar dinheiro público através de contratos fraudulentos na área da saúde. O alvo principal foi a organização social Iase, que recebia contratos do município para gerenciar serviços de saúde. Só que em vez de usar o dinheiro para cuidar de gente doente, segundo o MPF, o grupo teria desviado milhões para os próprios bolsos.
Manga está afastado do cargo desde novembro por decisão do Tribunal Regional Federal. Agora cabe à Justiça decidir se aceita a denúncia. Se aceitar, ele vira réu e vai a julgamento.
Como funciona o esquema segundo o MPF
Vamos descomplicar isso. Havia dois contratos entre a prefeitura e o Iase. O primeiro foi feito sem licitação, usando como desculpa uma emergência que o Ministério Público diz que nunca existiu. O segundo passou por concorrência, mas o edital já estava pronto para o Iase ganhar. Não é difícil ver que o jogo estava combinado.
Tem um áudio que mostra bem a temperatura dessa história. O então secretário de Administração, Fausto Bossolo, conversa com alguém sobre o resultado do chamamento público. Antes de saber quem ganhou, ele diz “estou suando frio”. Depois que descobre que foi o Iase, escreve “fico mais tranquilo então” e “susto da porra”. Ou seja, havia uma expectativa clara de quem deveria vencer. Bossolo também foi denunciado.
O Ministério Público aponta que o dinheiro desviado vinha de contratos fraudulentos entre o Iase e empresas parceiras. Algumas dessas empresas tinham ligação direta com a diretoria da organização social. Uma delas era uma empresa de engenharia cujo sócio tinha familiares em conselhos do Iase. Essa fornecedora emitia notas falsas e movimentou mais de R$ 10 milhões durante o período investigado. Chegou até a ser administrada pelo presidente do Iase, Sérgio Peralta.
Os intermediários da propina
Agora vem a parte que mostra como o dinheiro chegava até Manga. Dois nomes aparecem como peças-chave nessa engrenagem. O primeiro é Marcos Mott, empresário amigo do prefeito. O segundo é Josivaldo Batista de Souza, pastor evangélico e concunhado de Manga. Ambos “armazenavam alto volume de dinheiro em espécie”, conforme a denúncia.
Quando a Polícia Federal foi na casa de Mott, encontrou seiscentos e quarenta e seis mil reais. Na casa de Josivaldo, setecentos mil. Um relatório de inteligência financeira revelado pela Folha no ano passado mostrou algo ainda mais revelador. Mott depositou duzentos e trinta e sete mil reais em notas de dois, cinco, dez e vinte reais que estavam úmidas, mofadas ou com mau cheiro. Isso é o tipo de coisa que você vê em filme de crime, não em uma cidade do interior de São Paulo.
Ao pastor Josivaldo, o Ministério Público atribui a manutenção de uma planilha de contabilidade paralela que registrava entradas e saídas financeiras. A denúncia diz que essa planilha revela “a grandiosidade do esquema de corrupção organizado pelo grupo que teve acesso aos cofres municipais de Sorocaba”.
A lavagem de dinheiro pela igreja
Aqui fica ainda mais criativo. Cabia ao pastor e à igreja que ele representa parte da lavagem de dinheiro. A instituição religiosa mantinha um contrato com uma empresa de publicidade em nome da mulher de Manga. Segundo a denúncia, esse contrato era usado para dar aparência lícita aos recursos que vinham do esquema de corrupção. Ou seja, dinheiro sujo entrando pela porta dos fundos da religião.
O Ministério Público pede que os envolvidos tenham os bens confiscados, façam ressarcimento dos valores desviados e indenizem em sete milhões de reais a União e o município de Sorocaba, metade para cada um.
A defesa bate na tecla da perseguição
A defesa de Manga disse à reportagem da Folha que refuta “veementemente” as acusações e que a denúncia é “fruto de investigação completamente nula, porque iniciada de forma ilegal e conduzida por autoridade manifestamente incompetente”. Também alegou que o prefeito é vítima de perseguição política e que tem “absoluta confiança de que o prefeito e seus familiares não cometeram qualquer ilícito penal”.
Quando Manga foi afastado em novembro, publicou um vídeo dizendo ser vítima de “uma clara tentativa de assassinato de reputação”. Afirmou que tinha vontade de “explicar tudo em detalhes, mostrar os fatos e dar nome aos bois para que todos entendessem a verdade”, mas que não podia porque o processo estava em andamento.
Como tudo começou
Tem um detalhe interessante sobre como essa história veio à tona. O Ministério Público descobriu o esquema por acaso. O nome de Manga surgiu durante investigações semelhantes realizadas pelo Gaeco do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Isso aconteceu na esteira das eleições de 2020, quando um áudio interceptado pela Promotoria gaúcha apontava para uma reunião entre um investigado e Manga, que tinha acabado de ser eleito. A informação foi repassada a São Paulo, que passou a investigar o caso.
Agora o Poder Judiciário vai decidir se aceita a denúncia e transforma Manga em réu. Se isso acontecer, começa o julgamento de verdade. E aí sim, aquele vídeo que ele prometeu fazer explicando tudo vai fazer falta.




