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PF investiga orgias promovidas por Vorcaro com figurões como ferramentas de corrupção

Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master

Data: 18 de fevereiro de 2026

Vamos ser diretos: a Polícia Federal está fazendo um trabalho que parecia simples mas é mais complicado do que parece. Não é porque alguém foi a uma orgia que virou criminoso. O crime está em usar essas festas como ferramenta de corrupção. E é exatamente isso que a PF está investigando no caso do banqueiro Daniel Vorcaro.

Vorcaro está sendo investigado por fraude financeira na ordem de R$ 12 bilhões. Durante a apuração, descobriu-se que ele organizava encontros sexuais suntuosos com políticos, empresários e outras figuras públicas. Mas aqui está o ponto que a maioria não entende: a simples participação numa orgia não configura crime. Isoladamente, não é objeto de persecução penal. Parece óbvio, mas não é. A PF teve que deixar isso claro porque a confusão moral com a confusão jurídica é exatamente o que alguns querem.

O que importa mesmo é outra coisa. Segundo apuração da Revista Liberta, Folha de S.Paulo e do jornalista Guilherme Amado, do PlatôBR, a PF entende que essas orgias faziam parte de uma engrenagem de corrupção sofisticada. Os encontros funcionariam como um ativo utilizado pelo banqueiro para ampliar sua rede de relações e influência. Não era só diversão. Era negócio.

Quando a festa vira instrumento de poder

André Mendonça, novo relator do caso no Supremo, tem em mãos um relatório da PF descrevendo essas orgias. O entendimento atual dos investigadores é que o tema só ganha relevância criminal quando esses encontros se conectam a outros fatos sob apuração. A linha que separa a curiosidade privada do interesse público está na eventual vinculação entre os participantes e práticas ilegais investigadas. Decisões administrativas suspeitas, favorecimentos indevidos, tráfico de influência, corrupção. Isso sim é crime.

Quando um agente público ou uma pessoa com poder decisório aparece em ambientes bancados por Vorcaro, isso pode servir como indício de proximidade, intimidade e possível uso de recursos financeiros, bens ou serviços como forma de criar vínculos e facilitar ilícitos. É o que os investigadores chamam de análise contextual. Não é moralismo. É técnica.

O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União já fez uma representação recomendando a abertura de processo para identificar autoridades públicas federais que teriam participado das festas na casa de veraneio de Vorcaro em Trancoso, na Bahia. O documento, datado de 29 de janeiro, menciona a presença de altas autoridades dos Três Poderes da República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico.

Os detalhes que revelam a estratégia

Vorcaro se hospedou em um imóvel em Trancoso entre 2021 e 2022, que pertencia à empresária Sandra Habib, mulher de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil. Depois, a casa foi comprada por empresas ligadas a Vorcaro. Mas o que Sandra Habib relatou em mensagens de WhatsApp reproduzidas em processo judicial é revelador. Ela estava furiosa com o que ocorria no local.

“O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas. Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior”, escreveu Sandra ao corretor no dia 5 de outubro de 2022, véspera do aniversário de Vorcaro. Havia mais de 30 pessoas na residência, quando o contrato limitava o número a 20. Vorcaro contratou um conjunto de pagode com música alta, o que chamou a atenção de vizinhos, da polícia local e ambiental.

Mas Trancoso não foi o único lugar. De acordo com apuração da Folha de S.Paulo junto a 13 executivos, empresários e integrantes de órgãos públicos, as festas não se restringiram à Bahia. Eventos festivos foram promovidos por Vorcaro em diferentes locais, no Brasil e no exterior. Em São Paulo, a área de um hotel ficou conhecida por encontros mais regulares. As reuniões se tornaram assunto em círculos políticos e financeiros.

A infraestrutura do poder

Pessoas que conhecem Vorcaro afirmam que ele se empenha em criar redes de relacionamento no meio político e empresarial e considera relevante impressionar interlocutores para fortalecer laços. Isso não é coincidência. É estratégia.

Como exemplo, citam a reforma realizada para instalar um bar em estilo inglês, com infraestrutura completa, na área de escritórios da Titan, holding de seu grupo, no Edifício Birmann 32, na Faria Lima. O banqueiro também ganhou projeção como investidor do camarote VIP Café de la Musique Alma Rio, no Carnaval da Sapucaí, e por levar personalidades para acompanhar a Fórmula 1 em São Paulo.

Os eventos descritos nos bastidores são apontados como suntuosos e restritos a um grupo de autoridades. Interlocutores relatam a presença de políticos de diferentes partidos e executivos de instituições públicas, como bancos e fundos de previdência. Não era permitido entrar com celular. A denominação Cine Trancoso alimentou a percepção de que imagens teriam sido gravadas e guardadas pelo anfitrião.

O luxo como ferramenta

As mulheres convidadas eram descritas como modelos. Há versões de que, em algumas festas, mulheres chegavam de jatinho, vindas da Europa. As descrições citam croatas, ucranianas e russas. Segundo relatos, não falavam português, e circulou a narrativa de que a escolha se devia ao fato de não compreenderem o conteúdo das conversas. Pense bem nisso. Não é detalhe.

Em alguns eventos havia shows. O serviço incluía comidas e bebidas de alto valor. O cardápio mencionava petiscos com caviar. Entre os vinhos servidos estavam Petrus, La Tâche e Armand Rousseau, com garrafas que variam de R$ 5 mil a R$ 50 mil, a depender da safra. O uísque Macallan também era citado com frequência, com versões que variam de cerca de R$ 800 a quase R$ 90 mil.

Pessoas ligadas ao entorno do Master afirmam que algumas frequentadoras das festas teriam se tornado próximas de Vorcaro. Segundo relatos, recebiam mesada, hospedavam-se em hotéis de luxo em São Paulo e auxiliavam na indicação de novas convidadas. O noticiário do caso Master revelou transações de empresa ligada a Vorcaro com Karolina Trainotti, descrita como “sugar baby”. Ela recebeu um apartamento de quase R$ 4,4 milhões, doado pela Super Empreendimentos em 2024.

Os eventos internacionais e o padrão

Um dos eventos mencionados ocorreu durante a Semana do Brasil em Nova York, reunião anual com empresários e políticos. A festa foi descrita como um “after” de compromissos oficiais. Outro encontro citado ocorreu em paralelo ao Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza, em referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Segundo três pessoas que acompanharam o seminário, no dia seguinte ao evento do banqueiro, participantes comentavam a festa na avenida da Liberdade.

Parte dos convidados viajou acompanhada de esposas ou namoradas. A presença de mulheres ligadas às festas em espaços públicos gerou comentários entre participantes. Isso mostra que não era segredo. Era ostentação.

O que a defesa diz

Procurada, a assessoria de imprensa do banqueiro afirmou, em nota, que a defesa “repudia as informações e alegações apresentadas, que se baseiam em fonte não fidedigna e em relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresário”. A defesa sustenta que a divulgação de conteúdos com juízo moral e sem relevância jurídica contribui para ilações e invasão da esfera privada.

Mas aqui está o problema. Se essas festas eram apenas vida privada, por que envolviam autoridades dos Três Poderes? Por que políticos de diferentes partidos? Por que executivos de instituições públicas? Por que havia uma infraestrutura tão sofisticada para impressionar e criar vínculos? A resposta está em como a PF está enxergando o caso: não como moralismo, mas como técnica de corrupção.

O que realmente importa

A PF está fazendo seu trabalho corretamente ao separar o joio do trigo. Não é crime ir a uma festa. Crime é usar festas como ferramenta para criar proximidade com autoridades públicas, facilitar ilícitos e construir redes de influência baseadas em favores e comprometimento. É usar recursos financeiros, bens e serviços para criar vínculos que depois se traduzem em decisões administrativas suspeitas, favorecimentos indevidos e tráfico de influência.

Vorcaro está sendo investigado por fraude de 12 bilhões de reais. As orgias não são o crime. São a evidência de como ele operava. São o método. E é exatamente isso que a PF está analisando em conjunto com transferências financeiras, contratos, mensagens e outros elementos do inquérito. Quando tudo isso se conecta, aí sim temos crime. Aí sim temos corrupção de verdade.

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