Bolsonarista quer homenagear influenciador investigado por perseguir vereadora de Campinas
Data: 29 de abril de 2026
O vereador de Campinas Nelson Hossri (PSD) tenta aprovar nesta quarta-feira (29/4) uma homenagem ao influenciador bolsonarista Israel Grigorio Lopes Júnior, investigado por violência política de gênero e perseguição contra a vereadora Guida Calixto (PT). O problema é que Israel está proibido de entrar na Câmara Municipal de Campinas por uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Os ataques à Guida começaram em março, quando ela apresentou o Projeto de Lei nº 70/2026, que institui o Sistema Municipal de Enfrentamento ao Feminicídio. Israel e seus aliados transformaram um projeto de proteção às mulheres em alvo de assédio coordenado, com perseguições em praça pública e invasão ao gabinete.
A situação foi tão grave que, em uma rara decisão, o TRE- SP reconheceu a violência política de gênero contra Guida e concedeu uma medida protetiva à vereadora. A juíza Maria Raquel Campos Pinto Tilkian Neves determinou que Israel, junto com os influenciadores Herick Renato Brenelli e Miqueias Augusto de Carvalho Pereira, não podia ter qualquer contato com Guida e sua assessora parlamentar Marcela da Silva Freitas Rodrigues por qualquer meio de comunicação. Também proibiu o trio de entrar na Câmara e de se aproximar a menos de 100 metros.
Enquanto a investigação acontece, Hossri apresentou um projeto de decreto legislativo para homenagear Israel como alguém que contribuiu para “ações de interesse público no município”. A atuação do influenciador que, para a extrema-direita, justificaria uma homenagem: a participação em uma campanha de assédio coordenado contra a vereadora justamente porque ela apresentou o projeto que institui o Sistema Municipal de Enfrentamento ao Feminicídio. Gravaram assessoras contra sua vontade na Praça da Catedral, invadiram gabinetes, ameaçaram publicar vídeos de funcionárias públicas nas redes sociais e fizeram intimidações diretas. Tudo documentado e reconhecido pela Justiça.
A decisão do TRE reconheceu que os atos relatados pela vereadora à Delegacia de Defesa da Mulher configuravam assédio, constrangimento e perseguição de detentora de mandato eletivo em razão de sua condição de mulher. Guida não vê a decisão como ponto final. Para ela, é apenas o começo de um processo maior de responsabilização. Segundo a vereadora, “a decisão do TRE representa uma vitória para as mulheres depois de anos de perseguições, abusos e assédios que sofremos no exercício do nosso mandato. Esses misóginos precisam entender que não vão mais poder agir livremente contra as mulheres. Nós vamos até o fim para que a Justiça seja feita”.
Padre de ‘Festa Junina’
Esse não é o primeiro episódio de Hossri com proposições que ganham repercussão nacional pelo absurdo. O vereador já tentou conceder o título de Cidadão Campineiro ao Padre Kelmon, candidato à presidência em 2022, mas recuou após reação negativa na imprensa e nas redes sociais. Agora parte para o confronto direto contra a colega de Parlamento tentando homenagear um homem que sequer pode entrar na Câmara de Campinas.
O padrão de perseguição e intimidação a mulheres não é novo na Câmara de Campinas. Quando a vereadora Mariana Conti (PSOL) se licenciou para integrar a Flotilha humanitária a Gaza, o vereador Vini Oliveira (Cidadania) publicou um vídeo com informação falsa sobre drogas apreendidas, buscando atingir a colega. Logo após Vini Oliveira espalhar a fake news, em outubro de 2025, os bolsonaristas da Câmara tentaram aprovar um pedido de cassação contra Mariana Conti. Enfrentaram a mobilização popular e fracassaram.
Na semana passada, a Justiça condenou o vereador Vini Oliveira a pagar R$ 10 mil de indenização a Mariana por divulgar a fake news, conforme decisão da juíza Renata Oliva Bernardes de Souza. A magistrada foi clara: a postagem em rede social pessoal, com nítido intuito de macular a honra da adversária política, extrapola os limites da liberdade de expressão.
O que une esses casos é a estratégia: intimidação, gravação não consentida, ameaças de exposição pública e fake news como ferramentas de silenciamento contra mulheres que avançam agendas progressistas. Não é coincidência, é uma tática. “O mais incrível é que essa perseguição começou por causa de um projeto que combate o feminicídio. Que tipo de pessoa pode ser contrária a um projeto que quer colocar tornozeleira em agressores e que salva vidas?”, indaga Guida.




