Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo da diocese de Campos e integrante da Pastoral da Saúde e da Comissão para o Laicato da CNBB, afirmou à coluna Mônica Bergamo que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) precisa esclarecer com urgência o alcance de sua decisão de “decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo”. A informação é da Folha, coluna de Mônica Bergamo, publicada nesta segunda-feira, 28 de setembro de 2026.
A polêmica começou em um vídeo postado por Flávio em agosto, no qual justificava sua ausência num debate da TV Bandeirantes alegando que gostaria de debater com quem “não acredita em Deus”. Nele, o senador afirmou que baixaria um decreto entregando o Brasil a Cristo como primeiro ato de governo.
“Candidato disse que este será o seu primeiro ato de governo. É uma decisão perigosa porque envolve todas as outras religiões”, disse o bispo. “O que pode significar isso para a liberdade religiosa e para os religiosos não-cristãos? Haverá privilégios para os cristãos? São coisas que ficam no ar. A liberdade religiosa e de crença é um dos princípios da Constituição brasileira e interessa a todas as religiões.”
Flávio respondeu, pelo gabinete, que “fará uma oração antes de ler o termo de posse quando assumir a Presidência da República, entregando o Brasil nas mãos de Jesus”. Ou seja, em vez de esclarecer, confirmou.
Dom Roberto fez uma distinção que o candidato não pode ignorar. Para o religioso, Flávio não manifestou um desejo pessoal, mas divulgou uma intenção política e de governo, portanto deve ser cobrado. “Não cabe a um candidato a presidente dizer isso. Se ele é cristão, pode fazer uma declaração de fé. Mas não pode anunciar um ato que fere a laicidade do Estado brasileiro.” E disparou: “Ele não pode fazer de sua crença uma política pública, adotando no Brasil o confessionalismo de Estado. O Estado não tem fé. O Estado deve garantir o exercício da fé de todos.” O bispo estimou ainda que um presidente não pode usar critério religioso em nomeações, lembrando indiretamente a escolha de André Mendonça para o STF, justificada por Jair Bolsonaro com a promessa de escolher “terrivelmente evangélico”.


