Zambelli tenta ganhar tempo na Itália e Justiça italiana não cai na manobra
Data: 10 de fevereiro de 2026
Carla Zambelli tentou uma manobra e a Justiça italiana não caiu. A Corte de Apelação de Roma rejeitou nesta terça-feira o pedido da ex-deputada do PL para que fosse substituído o colégio de juízes responsável por analisar seu processo de extradição para o Brasil. Com isso, o tribunal vai retomar o julgamento nesta quarta-feira, às 10h da manhã em Roma, o que corresponde a 6h de Brasília.
Vamos entender o que Zambelli estava tentando fazer. A ex-deputada pediu a troca de magistrados porque a corte suspendeu a sessão do dia 20 de janeiro por falta de tempo para examinar uma série de pedidos apresentados pela defesa. Zambelli e seu advogado Pieremilio Sammarco entenderam o adiamento como uma rejeição às demandas deles, classificaram os juízes de “hostis” e formalizaram dias depois a solicitação de substituição da corte.
É o velho jogo de ganhar tempo. Se você consegue trocar os juízes, você ganha mais tempo. Se você consegue adiar a sessão, você ganha mais tempo. Se você consegue criar confusão processual, você ganha mais tempo.
Mas a Justiça italiana não é boba. A 1ª seção penal da corte, responsável por examinar o pedido de troca de magistrados, rejeitou a solicitação. Os juízes que estão analisando a extradição, que fazem parte da 4ª seção penal, foram mantidos no caso.
Para o advogado Alessandro Gentiloni, que representa o Brasil no processo por meio da AGU, a manobra de Zambelli era exatamente isso: uma manobra para ganhar tempo. “Do nosso ponto de vista, foi uma manobra destinada a ganhar tempo. Estamos satisfeitos que a corte tenha se organizado para decidir antes da audiência de amanhã”, disse Gentiloni ao jornal Folha de São Paulo.
Agora vamos aos fatos que importam. Zambelli está detida há seis meses na Itália, depois de ficar dois meses foragida. Ela fugiu do Brasil em junho para escapar da pena de dez anos de prisão referente à invasão do sistema do CNJ e à emissão de um mandado falso de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes. Quando já estava na Itália, foi condenada a outros cinco anos por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal. Os dois casos compõem um único processo de extradição.
Um dos pedidos da defesa de Zambelli era para que Eduardo Tagliaferro, ex-assessor do ministro Alexandre de Moraes no TSE, fosse ouvido como testemunha. Tagliaferro foi acusado de vazar mensagens de integrantes do gabinete de Moraes para obstruir investigações sobre a trama golpista. Ele está na Itália, impedido pela Justiça de deixar o país enquanto aguarda a tramitação de seu processo de extradição.
Aqui está o jogo. Zambelli quer que Tagliaferro testemunhe para tentar desacreditar as acusações contra ela. Quer que ele diga que Moraes estava perseguindo-a politicamente, que tudo foi uma armação. Mas Tagliaferro também está na Itália esperando sua própria extradição. É como dois afogados tentando se salvar um ao outro.
Os advogados de Zambelli também haviam solicitado o acesso a mais informações sobre o Colmeia, o cárcere no Distrito Federal onde ela deverá cumprir sua pena no Brasil, e a documentação sob sigilo do julgamento ocorrido no Brasil. Ou seja, queriam saber onde ela seria presa e o que foi decidido contra ela no Brasil.
O julgamento de extradição de Zambelli já foi adiado três vezes desde o fim de novembro. Pouco antes do Natal, o tribunal concedeu mais tempo para que a defesa analisasse documentação enviada pelo Brasil sobre as condições carcerárias. Antes, a defesa havia aderido a uma greve e, em outra ocasião, o tribunal pediu tempo para analisar papéis apresentados pelos advogados da ex-deputada.
Mas agora a Corte de Roma disse basta. Rejeitou a manobra de Zambelli e vai retomar o julgamento nesta quarta-feira. A sessão será uma continuação da audiência do dia 20 de janeiro, e o tribunal poderá retomar a avaliação dos pedidos apresentados pela defesa. É possível que uma decisão sobre a extradição seja tomada após a sessão e seja comunicada nos próximos dias.
Se for extraditada, o tempo de prisão na Itália será descontado do restante da pena a ser cumprido no Brasil. A Corte de Apelação de Roma atua como primeira instância nesse caso. Após a decisão do tribunal, as partes poderão recorrer à Corte de Cassação, última instância do Judiciário italiano. A palavra final sobre a extradição caberá ao governo italiano, por meio do Ministério da Justiça.




