Tenente-coronel preso por feminicídio é aposentado com salário integral pela PM de SP
Data: 2 de abril de 2026
A Polícia Militar de São Paulo publicou nesta quinta-feira uma portaria que manda para a reserva o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, acusado de matar a esposa, a PM Gisele Alves Santana. A decisão garante ao oficial um salário de aposentadoria integral, mesmo enquanto ele aguarda julgamento por feminicídio e fraude processual na cadeia.
Antes de ser preso em 18 de março, Geraldo Neto recebia R$ 28,9 mil brutos por mês. Com a aposentadoria pelos critérios de proporcionalidade de idade, aos 53 anos, o valor deve ficar em torno de R$ 21 mil mensais, segundo cálculos da reportagem do G1. O próprio tenente-coronel solicitou o benefício à corporação.
A rapidez da aprovação chamou atenção. O advogado criminalista da família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior, estranhou que a PM tenha publicado a portaria em menos de uma semana após o pedido, enquanto policiais doentes precisam entrar na Justiça para conseguir o mesmo benefício e praças levam pelo menos 60 dias. “Causou espécie a nós a celeridade da corporação em aposentá-lo”, afirmou o criminalista ao g1 e TV Globo.
A PM afirma que a aposentadoria não impede o processo de expulsão aberto pela Corregedoria contra o oficial. Porém, fontes consultadas pela reportagem indicam que, uma vez aposentado, ele pode perder a patente, mas não o direito ao dinheiro conquistado por tempo de serviço.
Silva Júnior também criticou a situação sob outro ângulo. “Não achamos justo esse cidadão que cometeu um crime tão bárbaro continuar recebendo valor às custas da população, inclusive dos pais da Gisele que pagam seus tributos”, disse o advogado. Ele reafirmou confiança de que o conselho de justificação demitirá o tenente-coronel, mas ressalvou que isso não afetará a aposentadoria.
Os indícios que contestam a versão inicial
Geraldo Neto alegou inicialmente que Gisele se suicidou após uma discussão. Laudos periciais da Polícia Civil descartaram essa versão e apontaram feminicídio. A investigação também revelou que o celular de Gisele foi desbloqueado e manuseado minutos após o disparo que a matou, com mensagens apagadas pelo tenente-coronel.
Segundo a análise de dados, o aparelho foi desbloqueado às 7h47min29s, 7h49min24s e 7h58min18s. Uma vizinha afirmou aos investigadores que ouviu um estampido único e forte às 7h28. Geraldo ligou para o 190 às 7h54min58s, já após Gisele ter sido baleada.
As mensagens recuperadas mostram que os dois trocaram conversas no dia anterior à morte, 17 de fevereiro, incluindo discussões sobre divórcio. No celular do tenente-coronel, porém, não havia nenhuma conversa com Gisele naquele dia. A última mensagem de Gisele, enviada às 23h, dizia que ele podia entrar com o pedido de divórcio. Antes disso, ela escreveu: “Vc confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão”.
LEIA MAIS SOBRE O ASSUNTO
O pacto da machosfera que acolhe feminicidas com um abraço e tapinha nas costas
Tenente-coronel usou desembargador como peça de xadrez para encobrir feminicídio
Polícia Civil prende tenente por suspeita de matar a esposa em São Paulo
Tenente-coronel da PM é indiciado por feminicídio de soldado e tem prisão decretada em SP




