Em áudio, Flávio Bolsonaro chama Vorcaro de irmão e cobra parcela para bancar filme do pai

O Intercept Brasil revelou nesta quarta-feira (13) uma série de conversas, documentos e uma gravação de voz em que o senador e hoje pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro cobra o banqueiro Daniel Vorcaro para destravar o pagamento do longa-metragem “Dark Horse”, que tem Jim Caviezel, o ator que interpretou Jesus Cristo em A Paixão de Cristo, no papel de Jair Bolsonaro.

A história começa em dezembro de 2024, quando Thiago Miranda, dono do Portal Leo Dias, marcou um encontro entre Flávio e Vorcaro na casa do banqueiro em Brasília. A senha usada por Miranda na mensagem era clara: “Flávio está ciente de tudo”. Naquele mesmo dia, Mario Frias mandou um áudio para Vorcaro agradecendo o apoio ao projeto e dizendo que o filme “vai mexer com o coração de muita gente”.

O combinado era robusto. Vorcaro se comprometeu a desembolsar 24 milhões de dólares, algo como R$ 134 milhões na cotação da época, para bancar a produção internacional. E não era promessa vazia. Só entre fevereiro e maio de 2025, seis transferências somando 10,6 milhões de dólares, cerca de R$ 61 milhões, já haviam sido pagas.

O dinheiro seguiu uma rota específica. Saía da Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, e ia parar no Havengate Development Fund LP, um fundo sediado no Texas controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. Dois nomes aparecem como intermediários das operações: Thiago Miranda e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como o principal operador financeiro de Vorcaro.

As mensagens mostram que Vorcaro tratava o projeto como prioridade máxima. “O mais importante disparado”, escreveu. E deu ordem: “Não pode falhar mais”. Chegou a orientar que os pagamentos fossem desviados pelo setor de câmbio do Banco Master quando enfrentou dificuldades operacionais.

O ponto alto da investigação é um áudio de setembro de 2025, dias antes de Jair Bolsonaro ser condenado pela trama golpista. Flávio liga diretamente para Vorcaro, o chama de irmão, e cobra o saldo pendente. Diz que a produção estava no limite e que dar calote em profissionais internacionais como Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh “ia ser muito ruim”. Vorcaro pede desculpas, diz que a semana tinha sido difícil e promete resolver até o dia seguinte. Os dois fizeram uma ligação de dois minutos e meio na mesma noite.

A intimidade entre os dois só cresceu. Em outubro, Flávio avisou que as filmagens estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado “no limite”. Vorcaro respondeu com naturalidade: “Deixa comigo”. Em novembro, Flávio mandou um vídeo de visualização única das gravações e escreveu: “Tá perdendo, irmão. Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”. Vorcaro respondeu: “Que demais. Ficou perfeito”.

Tudo isso enquanto o senador negava publicamente qualquer ligação com o banqueiro. Flávio já tinha dito que a conexão da família com Vorcaro era “narrativa falsa que o Lula tem criado”. O áudio, as mensagens e os comprovantes bancários contam outra história. Uma história em que o clã Bolsonaro e o homem mais radioativo de Brasília trocavam áudios, combinavam encontros na casa um do outro e tratavam um punhado de milhões como assunto entre irmãos.

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