Empresa usada por Vorcaro para financiar filme de Bolsonaro repassou R$ 139 milhões a firmas ligadas ao PCC e à máfia italiana
Data: 14 de maio de 2026
A empresa Entre Investimentos e Participações, que serviu de intermediária para os repasses do Banco Master ao filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro, enviou R$ 139 milhões a firmas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro. Entre os destinos desse dinheiro estão empresas acusadas de fraudes no setor de combustíveis, conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e integrantes da máfia italiana. As informações são do jornal O Globo.
Conforme apuração publicada pelo Intercept Brasil, as transferências ocorreram entre julho de 2022 e dezembro de 2025. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão ligado ao Banco Central especializado em combater lavagem de dinheiro, documentou essas movimentações.
A Entre foi utilizada por Daniel Vorcaro, dono do Master, para fazer pagamentos ao fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas. Comprovantes mostram que US$ 2 milhões foram enviados para esse fundo com objetivo de financiar a produção do Dark Horse, que retrata a campanha presidencial de Bolsonaro em 2018.
De acordo com documentos americanos, o fundo sediado no Texas tem como agente legal o escritório de um advogado de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente. Eduardo não respondeu aos questionamentos. Seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, admitiu na quarta (13) ter trocado mensagens com Vorcaro para cobrar repasses ao filme. Flávio é pré-candidato à Presidência e afirma que o banqueiro havia assinado contrato de financiamento, mas deixou parcelas atrasadas.
O relatório do Coaf indica que a Entre repassou recursos para quatro empresas alvo da Operação Carbono Oculto, investigação da PF que apurou organização criminosa dedicada à adulteração de combustível com ligações ao PCC. Essas firmas operavam redes de contas bancárias para burlar fiscalizações e atuavam no mercado ilegal de combustíveis.
Além disso, a Entre movimentou dinheiro para uma empresa de pagamentos de São Paulo investigada na Operação Mafiusi, ação que apurou esquema de lavagem de dinheiro do tráfico internacional envolvendo PCC e Ndrangheta, máfia italiana com atuação no Porto de Paranaguá.
O Coaf sinalizou suspeição sobre essas transferências, apontando que a Entre pode ter funcionado como conta de passagem para operações suspeitas. O órgão identificou créditos e débitos usando instrumentos não característicos da atividade declarada pela empresa.
A Entre fica numa travessa da Avenida Faria Lima, coração do mercado financeiro paulista, e é comandada pelo empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Seu histórico inclui passagens por Banco Nacional, Banco Garantia e Credit Suisse.
Freixo esteve na mira da segunda fase da Operação Compliance Zero, ação deflagrada pela PF em janeiro com 42 mandados de busca em endereços ligados a Vorcaro. Em mensagens interceptadas, Vorcaro sugeria fazer operação via Entre, e seu cunhado Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro, perguntava se podia pedir para o Mineiro. Freixo tinha seu contato salvo na agenda de Vorcaro com esse apelido.
A Entre funcionou como intermediária de liquidez para o esquema do Master, segundo investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) instaurada em 2023 por fraudes no mercado financeiro. A empresa supostamente dava aparência de normalidade a movimentações de investimentos sem lastro.
Em março, o Banco Central liquidou a EntrePay, pertencente ao grupo Entre e suspeita de intermediar fundos ligados ao Master e a Vorcaro, que permanece preso. A empresa informou por nota que realiza suas operações em conformidade com as normas do setor financeiro e permanece à disposição das autoridades competentes.
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